Máquinas, Collins Avenue e Diuturno

Máquinas – Colhedeiras de café, de melões, embaladoras de ovos, classificadoras de café, milhares de maçãs fotografadas e classificadas por minuto, hoje tem máquina para tudo que se possa imaginar, sem prejuízo das máquinas inimagináveis.

Só falta inventarem a mais simples: máquina para embalar areia em sacos plásticos. Em 2017, não faz sentido ensacar areia à mão, como vimos na tevê antes do Furacão Irma chegar à Flórida.

 

Collins Avenue – No auê midiático do Furacão Irma se aproximando da Flórida, o telespectador brasileiro deve ter visto centenas de vídeos da Collins Avenue, em Miami, avenida onde fui preso no século e no milênio passados. Acusação: furto de automóvel. Episódio divertido que tento resumir neste belo blogue.

Seguinte: passando por Miami na flor dos meus 18 aninhos, aluguei um Chevrolet conversível, em meu nome, com dois companheiros de excursão que tinha como objetivo “aprender inglês” numa temporada de dois meses em Lafayette, Louisiana.

Rodamos por Miami o dia inteiro comigo ao volante, os dois sócios e três moças que nos faziam companhia. À noite, minha futura namorada passou mal e não quis sair do hotel para jantar com o grupo. Os dois sócios no aluguel do Chevrolet reivindicaram as chaves e os documentos do carro para passear e jantar fora.

Ali por volta das dez da noite a namorada melhorou e saímos a pé, o galã de chapéu de feltro e sobretudo de lã, ela em vestido de noite, para comer qualquer coisa num dos restaurantes da Collins.

Dobrada a esquina, lá estava o Chevrolet estacionado ao longo do meio-fio, vidros abertos, sem chave na ignição ou documentos no porta-luvas.

Acontece que o Chevrolet daquele tempo tinha uma espécie de orelha, em torno do buraco onde se enfiava a chave, que, na dependência da forma de desligar o motor, permitia que o carro funcionasse torcendo a tal orelha. E o nosso conversível, de capota fechada, fora desligado permitindo a ligação do motor através da orelha.

Procurei nos restaurantes do entorno e não encontrei os sócios. Assumi o volante, jantei com a bela jovem num restaurante a alguns quarteirões, voltamos para o hotel… e nada de encontrar os sócios com os documentos e as chaves do carro.

Uma hora da manhã, partida do ônibus para Lafayette prevista para as cinco da matina, peguei o carro para procurar os sócios. Voltei à Collins, parei no lugar onde tinha encontrado o veículo e desci para botar moeda de 10 centavos no parquímetro, sem saber que o pagamento era dispensado a partir das cinco da tarde.

Um carro da polícia, luzes apagadas, parou de esguelha diante do Chevrolet e o imenso policial me alcançou no parquímetro: “Este carro é seu?”. Expliquei que era. E ele, do alto dos seus dois metros: “As chaves e os documentos?”. Expliquei que não os tinha. E isso num inglês que até hoje é nenhum.

Rápida revista à procura de armas, um dos policiais assumiu o volante do Chevrolet, o outro me empurrou para o banco do carona da viatura, pegou o microfone e avisou: “Prendemos o Chevrolet conversível e o ladrão”.

Sirena ligada, a duzentos por hora, num átimo chegamos à delegacia, onde fui desembarcado na parte dos fundos, passando pelas celas gradeadas em aço inox, cheias de bandidos, até chegar ao cubículo de identificação, com aquele vidro em que o criminoso é visto de fora para dentro.

Os sócios, quando viram minha cara de susto atrás do vidro, comentaram qualquer coisa, e o delegado perguntou: “Vocês conhecem o preso?”. Uma das moças, que falava bom inglês, explicou: “Ele é o dono do carro”. E o delegado, dois imensos revólveres nos coldres, botas, roupas de caubói: “Bota para fora!, que eles são franceses e são todos doidos”.

Com as chaves e os documentos voltamos ao Chevrolet seguidos por uns dez policiais, que desejavam saber o que tinha acontecido. A moça que falava inglês explicou o episódio. Abandonaram o Chevrolet na Collins Avenue porque o sócio dirigia muito mal. Peguei o carro mais tarde, os sócios deram parte do furto e fui preso logo depois.

Entre a queixa na delegacia e a minha prisão não se passaram dez minutos. Os policiais explicaram que havia mais de 300 viaturas à procura do Chevrolet e que os carros roubados, quando não eram localizados poucos minutos depois do crime, sumiam para sempre.

 

Diuturno – Muita gente confunde diuturno com “diurno e noturno”, quando significa “que se prolonga, prorroga ou protela no tempo; prolongado, longo, demorado.

A diuturnidade das ações policiais noticiadas pelos telejornais é assustadora: você liga a tevê e constata que a Polícia Federal está realizando buscas e apreensões em três endereços de um ministro de Estado e senador da República com mandato até 2019.

Na véspera vimos buscas, apreensões e prisões de outros figurões da mesma República; amanhã e depois teremos cenas parecidas, mostrando que as instituições “estão funcionando”.

Dez da matina, dia 14 de setembro, toca a campainha no exato momento em que este belo suelto chegou a “estão funcionando”. Era o barbeiro agendado para amanhã, que antecipou o serviço por falta de clientes em seu salão. Cortou-me o cabelo, queixou-se da crise, recebeu os cobres, voltou para o salão. Fui ao banho e voltei para fechar o blogue, Segunda-feira a gente comenta o final de semana.

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