Prestígio, Rocinha, Prateleiras e Desrespeito

Prestígio – Durante anos acompanhei o prestígio, a grande influência de um amigo nos mais altos escalões brasileiros. Baseado no que vi, ouvi e soube, atesto que ninguém pode imaginar o quadro. É curioso notar que o substantivo masculino prestígio vem do latim tardio praestigium,ii, que significava charlataneria, embuste.

Neste suelto significa poder de atração, sedução, fascinação, encanto, grande influência exercida por pessoa sobre outras pessoas.

Antes que a maldade humana possa pensar que procurei o prestigioso brasileiro, devo esclarecer que fui procurado por ele na fazendinha de Itaipava: levou um litro de uísque para conhecer o autor de alguns livrinhos sobre agropecuária. Nesse dia ele era diretor de um jornal dos Associados e foi levado à fazendinha por um amigo comum, engenheiro dos Associados. Entornamos três litros de uísque, o dele e dois meus, ficamos amigos.

A partir de então, acompanhei sua entrada e sua carreira numa das grandes redes de televisão até alcançar a direção nacional de jornalismo. Morando em Juiz de Fora, ajudei-o a procurar uma fazendinha próxima do Rio para passar os finais de semana. Visitei cerca de 50 fazendolas à venda – Opala, pneus e combustível por minha conta – até encontrar a propriedade que o amigo comprou.

Nela, durante anos, tomei uísques e vinhos da melhor supimpitude, fumei imensos charutos presenteados pelo embaixador de Cuba e assisti, boquiaberto, às visitas de um sem conto de famosos e poderosos à fazenda do jornalista, que foi obrigado a improvisar heliporto numa área próxima.

Aí é que está: ministros, governadores, senadores, bilionários – ninguém dispensa as visitas ao cavalheiro de prestígio jornalístico, que, por seu turno, acha que ficou gostoso e pode comer as melhores mulheres do país.

Ao som de numeroso uísque, amigo e palpiteiro livrei-o de muitas enrascadas que teriam destruído seu casamento até hoje estruturado nos conformes dos melhores matrimônios. Conselho simples: come quieto, mas não separa. Divisão de patrimônio conjugal só funciona para os advogados.

Em louvor da direção que lhe deu tamanho prestígio, seja dito que jamais me ofereceu trabalho na rede que dirigia. Sabia de minha péssima situação financeira, representada por um Opala todo enferrujado, com mais de 300 mil quilômetros rodados, e vivia perguntando: “Esta merda ainda funciona?”

Mas emprego na tevê nunca me ofereceu, prova da seriedade com que exercia a importante função.

 

Rocinha – Nos tiroteios da Favela da Rocinha, onde vivem 70 mil pessoas, um fato curioso tem sido esquecido: a avenida que serpenteia a favela já foi pista de um circuito de Fórmula 1. Nele correram, entre outros, o lendário Juan Manuel Fangio (1911-1995).

Circuito que passava pela Visconde de Albuquerque, no canal do Leblon, pela Avenida Niemeyer, subia pela Rocinha e descia pela Marques de São Vicente, pavimentada com paralelepípedos, sem esquecer os trilhos dos bondes. Assistência em pé nas calçadas sem guard-rails, muros, barreiras de pneus, sem nada de coisa alguma: milhares de fãs nas calçadas, inclusivamente o menino que já fui.

O Circuito da Gávea, também conhecido como Trampolim do Diabo, foi disputado pela primeira vez em 1932 e a última corrida foi em 1954. Chico Landi venceu três vezes e tinha a melhor volta: 7min03s.

 

Prateleiras – Saudoso amigo cardiologista tinha formação psicanalítica e vivia falando de uma quarta prateleira, à qual ninguém tem acesso. Se entendi alguma coisa, o analista consegue acessar a terceira prateleira do cliente, mas a quarta é inalcançável.

Não sei se minha confissão de hoje está na terceira ou na quarta, mas o fato é que gostei muito: passei a mão na bunda desnuda da namorada de um amigo. Estávamos os dois casais quase nus e não resisti à tentação de alisar a bunda da bela jovem, mesmo reconhecendo que o traseiro da minha namorada é da melhor supimpitude.

Antes que o caro e preclaro leitor pense que estou maluco, que faço um quadro de lubricidade senil ou resolvi participar de uma suruba, explico: passei a mão na bunda da moça e acordei alegre. Estava dormindo.

 

Desrespeito – Que se pode esperar de um país em que não se respeita um ministro de Estado? Revoltou-me saber que no sistema Drousys, da Oebrecht, ilustre ministro tem o codinome FODÃO na planilha de subornados.

Foda é tabuísmo de cópula (ato sexual). Tabuísmo é palavra, locução ou acepção tabus, consideradas chulas, grosseiras ou ofensivas na maioria dos contextos. FODÃO, portanto, é tabuísmo grande, inadmissível na apelidação de ilustre ministro de Estado.

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