Liturgia, Fular e Censo agropecuário

Liturgia – Entrevistado em 2009 pelo jornalista Edney Silvestre, Carlos Heitor Cony disse que gostava da liturgia católica e achava que poderia ter sido bom padre se continuasse no seminário. Liturgia, sabemos todos, é o conjunto dos elementos e práticas do culto religioso (missa, orações, cerimônias, sacramentos, objetos de culto etc.) instituído por uma Igreja ou seita.

Pausa para explicar que o corretor de textos do Windows acaba de corrigir o dicionário eletrônico do Houaiss, que recomenda “instituídos” depois de “o conjunto dos elementos” e o corretor sugere “instituído”. Obediente, adotei a sugestão do corretor e peço licença para falar da liturgia católica que anda muito mudada, como vejo na tevê, sem som, enquanto aguardo o programa Minas Rural.

O padre Marcelo Rossi não asperge água benta pelos fiéis que se põem ao lado de uma rampa de acesso ao altar, mas baldeia litros de água benta sobre os crentes. Se um daqueles baldes escapar de suas mãos pode matar católicos ao pé da rampa.

Há cânticos, e danças, e cumprimentos que não constavam da liturgia do tempo em que Cony quase foi padre. Virou bagunça.

 

Fular – O jornalista Michael Wolff, que vem de lançar o livro “Fire and Fury” sobre a Casa Branca de Donald Trump, tem sido entrevistado por diversos canais de tevê e sempre se apresenta de terno e gravata, não raras vezes com um lenço de fular no bolsinho do paletó.

Sou do tempo em que os homens sérios não dispensavam o lenço branco, impecável, sem pontas para cima, paralelo à borda do bolsinho do paletó, suposto de ali estar à espera de uma senhora em apuros. Nos bolsos grandes do paletó ou das calças os homens sérios transportavam outro(s) lenço(s), além de dinheiro, cartões, chaves e outros objetos normais.

Lenço de fular no bolsinho do paletó é o tipo do assunto sobre o qual não tenho opinião formada, pelo seguinte: amigos de longa data não dispensam aquele “enfeite” sem deixar de ser cavalheiros da melhor supimpitude.

 

Censo agropecuário – Anda sendo feito por aí um Censo Agropecuário cheio de modernidades, computadores, GPS, Google Earth etc. Só me lembro de um Censo. Foi na fazenda de Três Rios, RJ, antes de 1980. O agente do IBGE chegou a pé no finalzinho da tarde e ainda precisaria andar quatro ou cinco quilômetros para dormir na fazenda do doutor Ivan. Era sexta-feira. Procurador em Petrópolis, o doutor Ivan chegava à fazenda por volta das nove da noite. Centenas de hectares, terras muito férteis, topografia infame.

Não havia computador, mas uma valise e uma prancheta. O fazendeiro, lá mesmo na estrada, distante 500 metros do escritório (e da sede) da fazenda, tentava responder: área, número de empregados, produção de leite etc. Na lista das perguntas que exigiriam consulta aos arquivos do escritório – número de bezerros, número de novilhas etc. – o rapaz do IBGE dizia: “Bota qualquer coisinha”, mas quem “botava” na prancheta era ele. E assim retomou sua caminhada para chegar tarde da noite à fazenda do doutor Ivan.

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