Exagero e Inveja

Exagero – Segunda-feira, 5 de março, pelo menos dois canais de tevês matinais pouparam os telespectadores da lição que vinha sendo transmitida de cinco em cinco minutos: o quinto metatarso direito é o ossinho da extremidade do pé direito.

Sou autoridade no assunto depois um tiro de raspão no primeiro metatarso direito, o osso do dedão interno do pé direito. Tiro que me escapou da carabina calibre 22 numa caçada fluminense. Raspou o metatarso. Meio centímetro à direita explodiria o osso.

Foi há tantos anos, que a penicilina era novidade. Trataram-me com sulfa, um pó branco enfiado pelo buraco da bala até aparecer no orifício de saída.

Manquei durante alguns dias e fiquei bom, voltando a utilizar armas nas caçadas pantaneiras, mosquetões e a Winchester 30.30, munição poderosa, hoje “armas de uso privativo dos traficantes” como diz o José Simão.

Voltando à extremidade do pé direito, quinto metatarso do craque Neymar Júnior, a cobertura dada ao caso pareceu-me exagerada. Tudo bem que o rapaz seja um dos melhores jogadores de futebol do mundo, mas a cirurgia relativamente simples, o período de recuperação e outros pormenores, repetidos à exaustão, passaram da conta. Até a decolagem do jatinho de Belo Horizonte para o aeroporto de Mangaratiba, RJ, foi filmada ao vivo e em cores, como se fosse o avião do Putin decolando para um encontro amoroso com Trump num motel da Ilha de Bali, na Indonésia.

 

Inveja – Fiquei triste com o budismo há mais de um ano, quando soube que os monges budistas investem na metanfetamina, substância derivada da anfetamina usada como estimulante do sistema nervoso e no tratamento da obesidade.

Domingo, 5 de fevereiro de 2017, um monge budista birmanês foi preso depois que as autoridades encontraram mais de 4 milhões de metanfetaminas escondidas no seu mosteiro.

Quando foi preso, a polícia encontrou 400 mil comprimidos em seu carro, explicou à France Press o agente Kyaw Mya Win, da polícia da província de Maungdaw. Que se pode esperar de um monge que tem automóvel?

Revistando o mosteiro, os policiais encontraram 4,2 milhões de comprimidos escondidos. Em 2016, as autoridades apreenderam 98 milhões de comprimidos da droga sintética em Mianmar (ex-Birmânia), país que acabava de sair de décadas de ditadura e é um dos centros de passagem do tráfico de drogas no Sudeste Asiático. Em 2015 foram apreendidos 50 milhões de comprimidos.

Laos, Tailândia e Mianmar lideraram a produção de ópio e heroína durante anos, antes do Afeganistão se tornar o maior produtor. Em 2013, cerca de trinta monges tailandeses tiveram que abandonar os hábitos pelo hábito de consumir drogas. Trocadilho infame, concordo, mas fiquei chocado com a notícia porque simpatizava com o budismo e tudo que se conta de Buda, Siddharta Gautama (563-483 a.C.). Simpatizava porque é religião que não professa a existência de nenhum deus, congeminando com o meu ateísmo.

Buda defendia a possibilidade de alcançar o nirvana através de um estado de bem-aventurança integral. Monges birmaneses, com os seus automóveis, trocaram o nirvana pelas drogas sintéticas.