Brasilidade e Crase

Brasilidade – Nascido e criado na Sibéria, o russo deve achar muito normal o frio siberiano; nascido e criado no Senegal, o senegalês deve achar muito normal o calor senegalesco; nascido e criado na China, o chinês deve achar muito normal falar mandarim – enquanto o nascido e criado no Brasil não pode achar “normal” tudo que vê, e sabe, e ouve, e lê sobre este país grande e bobo.

A começar pelo escarcéu provocado sobre as celas da prisão de Benfica, no Rio, para visitas íntimas aos presos. Paredes pintadas de verde com um coração cor de rosa no meio podem estimular o tesão de meninos de 16 ou 18 anos, não a libido de velhos ladrões dos dinheiros públicos, como o doutor Picciani. Que, por sinal, tem um filho ministro de Estado. Como é possível que um político preso por roubo tenha um filho ministro?

Como é possível que dois ministros do Supremo Tribunal Federal se hostilizem, se xinguem pela imprensa, e tudo continue como dantes no Quartel de Abrantes? Afinal, são dois de um total de 11: quase 20% da mais alta corte do país, se esta choldra, que tem hino, bandeira e constituição, pode ser considerada país.

Choldra que transita entre a poupança da Delfin e a poupança do Delfim, ele mesmo, Antônio Delfim Netto, que foi embaixador do Brasil na França e se referia ao país que representava como “aquela merda”. Pois é: nas palavras do seu embaixador em Paris, o Brasil era aquela merda.

Caso contado pelo jornalista, escritor e acadêmico Arnaldo Niskier, que visitou o embaixador no dia em que havia outras visitas na embaixada. Quando a turma se retirou, o embaixador Delfim Netto trancou a porta do escritório e perguntou ao seu amigo Niskier: “Então, que notícias você me dá daquela merda?”.

O grupo Delfin, do empresário Ronald Guimarães Levinsohn,  da segunda maior caderneta de poupança do Brasil depois da Caixa Econômica Federal, estourou durante o regime militar prejudicando 3,5 milhões de depositantes.

E agora temos o Delfim, na flor dos seus 89 aninhos, às voltas com a corrupção na construção da Usina de Belo Monte, bacia do Rio Xingu, próxima do município de Altamira, sudoeste do estado do Pará.

 

Crase – Muito melhor do que comer à francesa é comer a francesa.