Público-alvo

Público-alvo – Em 1925, quando passou desta para a pior, Irineu Marinho não podia imaginar o público-alvo de seu jornal 93 anos depois. Ressuscitando, ficaria horrorizado com a matéria de página inteira publicada na edição de 9 de junho de 2018. Assunto: entrevista do cantor Marcelo Falcão. Manchete em letras garrafais: “Posso ser tão foda quanto O Rappa”.

Foto colorida de 20 x 29 cm do senhor Marcelo Falcão, figura assustadora cujas opiniões não interessam a ninguém, mesmo depois do entrevistador Silvio Essinger informar que o senhor Falcão dividiu o terapeuta com Roberto Carlos. Terapeutas sofrem. Não por acaso Lacan inventou as sessões de cinco minutos, pagas a peso de ouro, para livrar-se dos malucos.

Muitos clientes pagam em dinheiro e o terapista não pode declarar seus rendimentos ao imposto de renda. Os realmente inteligentes investem os cobres em champanhe vinificado em Reims, no que obram muitíssimo bem.

É doloroso o processo de extinção do jornal impresso. Papel, tinta e distribuição muito caros, tiragens ridículas, público-alvo em excício. Valha o substantivo, que ninguém conhece, mas está no Houaiss: “condição do que ou de quem se arruinou; dano, estrago, prejuízo. A morte humana”.

Faz frio. Maldito “friozinho” a que se referem as jornalistas das televisões. Falcão é designação comum a várias aves falconiformes da família dos acipitrídeos, pandionídeos e falconídeos, consideradas aves de rapina.

Rapina é ato ou efeito de rapinar; roubo praticado com violência; rapinação. Se o roubo é praticado com violência, Gilmar Mendes não manda soltar o ladrão. Marcelo Falcão não é bandido, é cantor e dividiu o terapeuta com Roberto Carlos. Portanto, pode ser tão foda quanto O Rappa. E os imbecis que assinam o jornal que se danem.