Rússia

Rússia – Misoginia é “ódio ou aversão às mulheres; aversão ao contato sexual com as mulheres”. Entendo que o gay tenha aversão ao abençoado contato, mas não deve ter ódio às mulheres. Todo gay é muito ligado à mãe.

Na imbecilidade daquela cena de brasileiros ensinando moças russas a dizer obscenidades, que vimos nas tevês, houve quem falasse em machismo e misoginia, como também não faltaram aqueles que viram no triste espetáculo uma “brincadeira”.

E aí entramos num terreno difícil de explicar. Há brincadeiras, e são muitas, perfeitamente idiotas. O ato ou efeito de brincar abrange uma porção de situações, de hábitos, que não têm a menor graça.

O substantivo masculino papagaio, na rubrica ludologia, significa brinquedo que consiste numa armação leve de varetas, recoberta de papel fino, e que se empina no ar por meio de uma linha; arraia, cafifa, pandorga, pipa, raia.

Se o brincalhão passa cerol na linha pode matar pessoas além de cortar as linhas de brincalhões que nunca lhe fizeram qualquer maldade. O mesmo se aplica aos baloeiros, que podem derrubar aeronaves ou provocar tremendos incêndios florestais e urbanos.

E assim chegamos aos trotes, brincadeiras muito comuns no Brasil, que consistem basicamente na tentativa de ridicularizar calouros por parte dos veteranos.

Ninguém é obrigado a acreditar, mas passei nos vestibulares das duas melhores faculdades de Direito do Rio, a Nacional e a do Catete. Escolhi cursar o Catete, que ficava entre minha casa e o meu local de trabalho. Além disso, tinha estacionamento nas ruas próximas menos difícil que nas imediações da Nacional.

Todo o corpo docente do Catete era ou havia sido da Nacional. Tive os melhores mestres daquele tempo. Se nada aprendi foi mesmo por burrice e falta de entusiasmo pela ciência do Direito.

Pois muito bem: minha turma foi a primeira poupada do trote na faculdade do Catete. Iniciativa dos veteranos. Meia dúzia deles tentaram nos dar um trote, mas houve reação, o calouro Roberto plantou a mão no focinho de um veterano e tudo terminou na tentativa.

Agora é que vem o melhor da história, que talvez explique machismos, feminismos, misoginias, gêneros e outros bichos. Alguns dias depois do nosso “trote”, a faculdade Nacional realizou o seu no centro da cidade. Consistiu no desfile dos calouros pintados, quase nus, em carroças puxadas por burros do antigo sistema de limpeza urbana, que ainda funcionava nos subúrbios cariocas.

Tudo fotografado e exibido nos jornais impressos, que eram muitos no Rio daquele tempo em que a tevê engatinhava. Pois muito bem: quase todas as nossas colegas, que não conheceram o trote no Catete, foram vistas e fotografadas tomando o trote da Nacional, alegres, pintadas, desfilando nas carroças pelo centrão da cidade.

Escrevo domingo, 24 de junho, pela manhã, depois de passar a vista num dos jornais que assino. Ilegível da primeira à última página em todos os cadernos. Salvou-se a foto de Fátima Bernardes, na flor de suas 55 primaveras, ainda palatável. E bota palatabilidade nisso.