Mineiridade

Mineiridade – Em 1996, quando me mudei para Belo Horizonte, tive a fortuna de ser apresentado ao cirurgião José Carlos Alves, que se tornou meu amigo-irmão. Pessoas como José Carlos são bênçãos que a vida nos proporciona. Professor de Medicina, inteligentíssimo, cultíssimo, leu tudo sobre os mais diversos assuntos e assimilou tudo que leu de melhor. Costuma dizer: “Sou médico e acredito na Medicina”, como também professa a amizade em sua mais alta forma, desinteressada, copiosa, total.

É dele o e-mail que recebi ontem e merece divulgação neste blogue pelas informações sobre as origens da mineiridade. “Minas está onde sempre esteve” escreveu Otto Lara Resende, outro grande mineiro. Creio interessante divulgar a pesquisa sobre os cristãos-novos que ajudaram a povoar o território dos meus antepassados, que adotei há muitos anos.

Prezado Eduardo,

            Relendo seu magnífico “Amor sincero custa caro” recordei-me que você se amarra numa mulher com cara de cavalo. Na minha juventude, “Cara de Cavalo” era um bandido carioca que assassinou o detetive LeCocq. Tempos depois ele foi pego pelo grupo intitulado Scuderie LeCocq, precursor dos esquadrões da morte. Cara de Cavalo foi assassinado com centenas de tiros. Há muitos anos, um primo longínquo de Entre Rios de Minas afiançou-me que as características físicas mais marcantes da família Ribeiro de Oliveira, de meu avô materno, eram o lábio superior longo, com acentuada distância entre a columela e o arco de Cupido, e a cara de cavalo. Há cerca de dois anos, fiz uma conferência sobre “As inquisições”, no Museu da História da Inquisição de Belo Horizonte, na Pampulha. Esperava uma plateia pequena e fiquei admirado com o auditório abarrotado com mais de duzentas pessoas. Presentes estavam políticos, professores, historiadores e outros. Estudando sobre os cristãos novos em Minas Gerais, descobri que o tipo físico incluía a famosa cara de cavalo. O historiador Izaac Izecksohn calcula em 400.000 o número de cristãos-novos imigrados de Portugal para as Minas Geraes durante o século XVIII. Como os portugueses de categoria social mais elevada estavam impedidos de exercer ofício mecânico pelos estatutos da “limpieza de sangre” os cristãos novos tocavam todas as atividades da capitania. Eram os marceneiros, construtores, tropeiros, mineradores, traficantes de escravos, bandeirantes, vendeiros, estalajadeiros, médicos e cirurgiões. Ofício mecânico era aquele que implicasse qualquer trabalho manual. Os cargos de mando eram exercidos pelos homens bons. Homem bom era aquele que conseguisse comprovar ser cristão velho de quatro costados (os oito bisavós serem cristãos velhos), e não terem nos quatro costados qualquer laivo de sangue negro, mouro ou judeu. Pela natureza das profissões, os homens bons que trabalhavam ficavam restritos a advogados, militares e eclesiásticos, bem como aos que viviam de rendas. Fernão Dias Paes se casou com uma cristã nova da família Betting ou Betinck. O nome da cidade de Betim tem essa origem.  O sobrenome cristão novo mais comum era “Rodrigues”. Garcia Rodrigues, descobridor do caminho novo para as minas filho de Fernão Dias, lhe teve negado o hábito da Ordem de Cristo por ser descendente de judeus. Resumindo, a contribuição étnica dos judeus na formação do povo mineiro é inegável.  É digna de registro a frequência de mineiros com cara de cavalo. De minha parte, tenho certeza que sou marrano. Na próxima estada nos USA  para ver meu neto, farei, por mera curiosidade, um estudo de meu genoma para saber a real contribuição de sangue judeu na minha pessoa. Grande e fraterno abraço do José Carlos.