Interrogatório

Interrogatório – Recebi e-mail de um estudante de jornalismo da UFMG, de BH, verdadeiro interrogatório sobre o gênero crônica que cometi durante anos na imprensa mineira.

Esforcei-me para explicar o que era possível, deixando sem resposta três ou quatro perguntas que exigiriam explicação de milhares de palavras.

Enviei a resposta sem merecer agradecimento do inquisidor. Consultei-o sobre o recebimento do meu e-mail e nada de resposta. Foi há meses. Nunca mais tive notícias do rapaz, que não conheço pessoalmente.

Aproveito o blog de hoje para mostrar as perguntas do inquérito e as minhas respostas.

1. Qual foi o primeiro contato que você se lembra de ter tido com a crônica?

2. Como funciona o seu processo criativo na hora de escrever uma crônica?

3. Para você qual a função da crônica? Você acha que isso se modificou ao longo do tempo? Como?

4. Uma crônica precisa estar em um jornal para ser classificada como tal?

5. Você já escreveu uma crônica especificamente para outra plataforma (livro ou internet, por exemplo)?

6. Essa classificação pode ser complicada, ainda mais atualmente com a internet onde os gêneros textuais são cada vez mais híbridos. Como você enxerga o formato e a atuação da crônica na era digital?

7. O seu modo de trabalho se alterou depois da popularização do computador e da internet/redes sociais?

8. A questão da valorização da objetividade pode ser um dos principais fatores que fizeram com que textos mais literários como a crônica perdessem espaço nos jornais, porém antigamente essas duas abordagens coexistiam, o que você acha que mudou? E que outros fatores colaboraram para isso?

9. Assim como ocorrido no movimento do Novo Jornalismo nos EUA, no momento atual de crise na credibilidade dos jornais você acha que uma aproximação à literatura poderia ser uma solução para atrair mais os leitores?

10.  Você poderia comparar brevemente as semelhanças e diferenças em como alguns de seus cronistas preferidos transmitiam o cotidiano e o tempo presente em seus textos?

1. Bacharel em Direito, autor de dois livros metidos a engraçados, repórter do Globo, comecei a fazer pequenas crônicas semanais no caderno agrícola do jornal. Mais tarde, quando me demiti para morar no interior sem telefone e luz elétrica, continuei fazendo crônicas semanais que mandava pelos Correios para O Globo.

2. Meu “processo criativo” tem relação com o espaço disponível. Foram 35 anos de crônicas mensais para a revista A Granja: 750 palavras, variando de 747 a 750. Pedi demissão recentemente porque já não tenho contato com as coisas da roça.

No Hoje em Dia, crônicas diárias (textículos) de até 500 palavras durante muitos anos. No Estado de Minas, meia página diária (descanso às terças-feiras) durante 10 anos. Ganhava bem. Caí fora quando o jornal, apertado pela crise, parou de pagar. Fico feliz de saber que o João do estacionamento ainda se lembra de mim.

Ao todo, devo ter passado com folga das 15 mil crônicas (e 19 livros publicados). Nunca tive problemas com a “página em branco”. Além de trabalho e fonte de renda, escrever sempre foi uma diversão.

Sempre que possível, uma pitada de humor faz bem à crônica. E tem mais uma coisa: nada de crônicas divididas, que ficam parecendo folhetins. Há um imbecil, que escreve uma vez por semana no Globo e divide suas “crônicas” em duas ou três partes. Ora, ninguém se lembra, sete dias depois, do besteirol escrito na semana anterior.

Houve tempo em que escrevi para oito revistas mensais agropecuárias. Pagamento: meia página de propaganda do meu gado, espaço que, em alguns casos, valia três mil dólares.

Quando vendi o gado, só A Granja continuou pagando, mas muito menos que três mil dólares.

3. Função da crônica? Qual é a função da poesia, do romance, do artigo? No meu caso era divertimento e meio de vida. É um gênero que envolve o autor, a opinião do autor, a vivência do autor no fato comentado.

Sempre tive horror ao pronome sujeito eu. Se escrevo que “bebi um litro de vinho” está claro que não foi minha avó quem se avinhou. O “eu” normalmente é dispensável. Veja a Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha & Lindley Cintra. Celso Cunha era tio do Aecinho, Aécio Neves da Cunha, senador da República. Sim, o tio e o pai do Aecinho, bem como o avô Tristão Ferreira da Cunha eram honestíssimos.

As modificações no gênero crônica são compreensíveis ao longo dos anos, mas a “boa crônica” de João do Rio, Rubem Braga, Fernando Sabino & outros continua firme. Hoje temos Hugo Werneck, Ignácio de Loyola e mais meia dúzia.

4. Não precisa do jornal. As revistas sempre tiveram bons ou ótimos cronistas. Na internet vale tudo, até a boa crônica.

5. Já reuni crônicas em livro. Tenho fraca atuação na internet. Faço um blog há mais de um ano para meia dúzia de leitores. Eventualmente, o blog pode “parecer” crônica.

As perguntas 6789 e 10 exigem análise de um crítico literário, dos bons, e pedem um livro. Não sou crítico (literário…) e já passei dos 80 anos. Portanto, fico devendo o trabalho.

Resumindo, bons cronistas são aqueles que a gente procura nos jornais e nas revistas, como faço com a Cora Rónai no Globo das quintas-feiras, mesmo discordando de muita coisa que ela escreve sobre gatos, aquários, capivaras & outros bichos.