Culpa

Culpa – O aquecimento global tem sido usado para explicar a fome no planeta, os milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza, que, por sua vez, é de inacreditáveis 232 reais mensais, a queda de Marina Silva nas pesquisas eleitorais, o fato de Eymael e Goulart Filho disputarem palmo a palmo o último lugar, o furacão Florence ameaçando a costa leste dos Estados Unidos, o êxodo venezuelano, os resultados das partidas de futebol  – o aquecimento global explica até o frio que continua fazendo em Juiz de Fora, cidade-polo da Zona da Mata de Minas, e serve para ocultar a verdadeira culpada pela maioria dos problemas da Terra.

Refresco a memória do caro e preclaro leitor com os números que tenho citado vezes sem conto, respeitado o fato de que as locuções “sem conto” e “sem conta” são formas corretas e sinônimas.

Todos os problemas que assolam o planeta em 2018 esbarram numa palavra que entrou em nosso idioma no ano de 1873: demografia. É a ciência que investiga as populações humanas (em aspectos como natalidade, produção econômica, migração, distribuição étnica etc.) sob uma perspectiva quantitativa.

Na esperança de que o caro e preclaro leitor tenha curtido a locução “sem conto”, que pintou no pedaço, informo que a realidade demográfica de 2018 é inteiramente diferente daquela que existia até meados do século passado.

Aqui mesmo no Brasil, todos nos lembramos daquela música de Miguel Gustavo “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil…” da Copa de 1970. Pois muito bem: os 90 milhões de 1970 são hoje, transcorridos 48 aninhos, 208 milhões de brasileiros.

No resto do planeta o aumento populacional foi igual ou pior. O “espaço” que havia para receber ondas migratórias não existe mais. Em 1802 a Terra tinha um bilhão de habitantes. Levou 126 anos para alcançar dois bilhões em 1928 e 13 anos para chegar aos três bilhões em 1961. A população do planeta passou dos sete bilhões em 2011.

Todo o espaço que havia para acolher gente até 1928, noventa anos atrás, quando a Terra alcançou dois bilhões de pessoas, já não existe hoje. Daí a complexidade do assunto tratado por alto, muito pela rama, nos casos de centenas, milhares de pessoas que fogem para Bangladesh ou para a Europa, eventualmente para o Brasil.

Culpar o aquecimento global pelo fato de 900 milhões de pessoas passarem fome é fácil, mas desonesto. A culpa está nos quase 8 bilhões de almas que zanzam por aí.