Racismo

Racismo – Durante cinco anos fui vizinho de cerca de um quilombo na serra fluminense. Cerca de arame farpado no alto de um pasto 1.500 metros acima do mar, minha casa na parte baixa do vale, altitude 1.260m, e o quilombo no fundo do vale vizinho. Nas poucas vezes em que fui, a cavalo, ao alto do morro, pouco vi do quilombo, não sei se os quilombolas eram gordos, magros ou normoponderados, nem se eram pretos retintos ou mestiços, das muitas mestiçagens que existem por aí.

O substantivo masculino racismo é o conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre etnias, como também é doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras.

É também o preconceito extremado contra indivíduos pertencentes a uma raça ou etnia diferente, geralmente considerada inferior. Por analogia, é atitude de hostilidade em relação a determinada categoria de pessoas.

O recrudescimento de episódios racistas nos Estados Unidos, atribuídos a supremacistas brancos, demonstra que o fenômeno é cíclico. Na Medicina Legal que estudei, branco atraído por negras, preta atraída por brancos, eram considerados casos de cromo-inversão sexual. E inversão até hoje, no Houaiss e em sentido pejorativo, é “atração entre ou relacionamento de pessoas do mesmo sexo; homossexualidade”.

Cáspite! Quer dizer que no Houaiss “homossexualidade” ainda tem sentido pejorativo, depreciativo, desfavorável, aviltante? Pelo visto, dicionarista não lê jornal, não ouve rádio, não tem televisor.

Volto ao racismo para falar da primeira visita que fiz aos Estados Unidos numa excursão de 70 dias, ano de 1956. Nos estados sulinos o preconceito ainda era feroz. Basta dizer que os supermercados tinham pequenas janelas laterais através das quais eram feitas as vendas às pessoas “de cor”. Em cima das janelas, o aviso: “Coloreds only”. Enquanto os brancos entravam no prédio para ter acesso às gôndolas e fazer compras, os coloreds compravam através das janelinhas.

Nos ônibus urbanos, colored “a person who is wholly or partly of nonwhite descent” viajava nos bancos traseiros, enquanto os brancos ocupavam os assentos dianteiros. Na dependência do número de brancos ou pretos, havia plaquinhas indicativas deslocadas sobre os encostos dos bancos.

Não foi há mil anos, mas ainda outro dia, onze anos depois de terminada a Segunda Grande Guerra. As balconistas das lanchonetes de beira de estrada, onde parava nosso ônibus, se recusavam a atender uma colega de nossa excursão, jovem mulata clara. Para comer um sanduíche e beber um suco, a moça fazia o pedido por intermédio de um excursionista white.

No balaio do racismo você pode incluir subtipos como o biológico, o territorial, o econômico e muitos outros que não têm, necessariamente, relação com as cores das peles. O biológico faz que a esmagadora maioria dos animais procure seus iguais evitando os “diferentes”. Andorinhas não procuram os pombos, que não procuram os urubus. Cavalos e bois, soltos numa pastagem, reúnem-se em lotes de equinos e de bovinos mesmo não sendo espécies “inimigas”, que se alimentam umas das outras.

Brancos, ou índios, ou negros desde sempre lutam por seus territórios, pouco lhes importando as cores de suas peles. Os escravos africanos trazidos para o Brasil não foram laçados nas savanas pelos conquistadores europeus com aquelas botas e aquelas roupas. Foram capturados por outros negros, que os revenderam aos traficantes europeus. A palavra escravo nos chegou através do latim medieval slavus,sclavus, do grego sklábos,sklabenós ‘eslavo’, mais tarde ‘escravo, cativo’. Eslavos são brancos há milhares de anos.

Disputas territoriais, econômicas, tribais têm feito que grupos de brancos e brancos, de negros e negros, de índios e índios se digladiem desde sempre.

Por derradeiro, é importante repetir a constatação de um personagem do Eça: “Em a gente se acostumando, a preta é uma grande mulher”.