Semana

Semana – Procurando fugir das pesquisas eleitorais e das análises dos seus resultados, dei com este idoso costado num programa televisivo com jovem casal brasileiro hospedado no hotel Emirates Palace em Abu Dhabi.

Claro que não sei onde fica Abu Dhabi, mas o Google sabe e informa que é a capital dos Emirados Árabes Unidos e também o maior de todos os Emirados com uma área de 67.340 quilômetros quadrados.

Mais que um assombro, o hotel é um acinte, uma ação praticada com premeditação, de caso pensado, a fim de contrariar, desgostar, ofender o mundo. Não há nada que explique ou justifique tamanho luxo.

Ainda fugindo das pesquisas, num acesso de gabolice, tomo a liberdade de transcrever a coluna Justiça, do escritor e magistrado Renato Zupo, juiz de Direito na comarca de Araxá, MG.

Filósofos do Século XXI.

Um bom fenômeno nos trouxe a internet e o mundo virtual: os filósofos eletrônicos, em substituição aos pastores televisivos do final do século passado. Não que os pastores tenham sumido da mídia, mas como são mais corriqueiros somem como árvores em florestas. Os pensadores desse novo mundo plugado e conectado, ao contrário, estão vendendo como água e estão ajudando a mudar para o bem a cabeça dessa moçada brasileira. Vou me fixar em quatro caras bons. Não concordo com tudo o que dizem, mas até pra dizer besteiras eles são ótimos, e com alguns concordo mesmo, em quase tudo: estou falando de Leandro Karnal, Luiz Felipe Pondé, Olavo de Carvalho e Mário Sérgio Cortella. Há vídeos entre eles debatendo em altíssimo nível. Chega a ser covardia coloca-los para dialogar com alguns políticos e há entrevistas no youtube em que essas covardias acontecem. Cito como exemplo Eduardo Suplicy tentando, timidamente como é do feitio do petista, rotular Olavo de Carvalho como conservador – vale a conferida. Tivemos aqui em Minas um carioca “importado” pra nós muito melhor do que todos eles: Eduardo de Almeida Reis, hoje aposentado em Juiz de Fora. Gênio é ele. Mas por aqui logo pegou o que minha irmã jornalista chama de “maldição 031” dos mineiros e não tinha toda essa mídia que se tem hoje. Ele ensinaria a apertar uns parafusos aqui e acolá e tornaria todo esse debate perfeito. Ainda pode fazê-lo. Volta, Eduardo.

Karnal.
O mais católico dos novos pensadores talvez seja ateu. Ele não abre, ou abre pouco. É o grande defeito de Leandro Karnal: no afã de expor só suas ideias, ele se esconde. Freud já havia falado disso e nunca qualquer outro pensador escapou da conclusão do que somos o que somos e nossas ideias, e não nos conseguimos delas nos dissociar. Karnal tenta, talvez premido pela praga do PC (politicamente correto) que lhe rende palestras mundo a fora, e não consegue. Fica anódino. Mas poucas vezes li pensadores tão profundos em teologia e na linguagem e na história bíblicas. Sacerdotes católicos e evangélicos deveriam tê-lo como leitura de cabeceira.

Cortella.

Mário Sérgio Cortella é dono de uma oratória poderosa e uma voz de cardeal candidato a Papa rezando missa em latim. Prega a filosofia, não a ensina. Não conseguimos escapar de seu tom congregador e com isso ele diz verdades óbvias que se tornam revelações, como o ovo de Colombo. Depois da descoberta, o que se pensa é que a solução era fácil e sempre esteve lá. Mas foi necessária a descoberta, o dedo na ferida, o diagnóstico. Como, por exemplo, ao definir a nossa crise econômica atual: ela é contundente porque nunca caímos de tão alto. A classe média estava nas nuvens e desceu em queda reta ao purgatório. E o inferno está logo ali. Eu e muita gente não havíamos pensado antes nesta verdade tão óbvia. Um ovo de Colombo. Cortella, no entanto, não consegue escapar da discussão fácil, piegas e prostituída sobre esquerda e direita. Um crime para um pensador tão brilhante. E deve procurar escrever livros mais profundos também. Seu pensamento merece maior imersão.

Luiz Felipe Pondé.

De longe o melhor como escritor. Também consegue desancar um debatedor sem mudar o tom de voz, sem ficar ruborizado. Tem um talento impressionante para desconstruir críticos sem entrar na pilha ideológica. Acho que aprendeu isso com um autor que ele (e eu) adoramos: Nelson Rodrigues. Pondé escreveu muito sobre Nelson, e bem, e tirou dele aquela filosofia diária que precisamos para encarar o mundo, para entender o mundo, ao acordar. Também é um erudito bíblico e é dele a frase: “O ateísmo é uma conclusão óbvia, não há nenhuma grande inteligência nisso.”

Olavo de Carvalho.

Talvez o mais polêmico, porque não se escora em melindres para escancarar sua retórica política brutal e sem anestesia. Odeia as esquerdas porque as viu nascer dos bolsos dos endinheirados. Nunca – ele o diz – soube de revolucionário pobre no Brasil. O que viu muito é progressista iludindo pobres. Diz que os conservadores é que lutavam, inclusive na época do regime militar, para publicar seus textos – o que só Roberto Campos conseguia. Compara o eleitorado às manadas bovinas e bandos de estudantes de faculdade fascinados com Che Guevara e sem profundidade alguma sequer para entender a congruência entre socialismo e comunismo. Ofende mesmo. Se for ao ABC paulista apanha. Mas (ah…) mora nos Estados Unidos – de lá é mais fácil ser liberal.