Máquinas, Collins Avenue e Diuturno

Máquinas – Colhedeiras de café, de melões, embaladoras de ovos, classificadoras de café, milhares de maçãs fotografadas e classificadas por minuto, hoje tem máquina para tudo que se possa imaginar, sem prejuízo das máquinas inimagináveis.

Só falta inventarem a mais simples: máquina para embalar areia em sacos plásticos. Em 2017, não faz sentido ensacar areia à mão, como vimos na tevê antes do Furacão Irma chegar à Flórida.

 

Collins Avenue – No auê midiático do Furacão Irma se aproximando da Flórida, o telespectador brasileiro deve ter visto centenas de vídeos da Collins Avenue, em Miami, avenida onde fui preso no século e no milênio passados. Acusação: furto de automóvel. Episódio divertido que tento resumir neste belo blogue.

Seguinte: passando por Miami na flor dos meus 18 aninhos, aluguei um Chevrolet conversível, em meu nome, com dois companheiros de excursão que tinha como objetivo “aprender inglês” numa temporada de dois meses em Lafayette, Louisiana.

Rodamos por Miami o dia inteiro comigo ao volante, os dois sócios e três moças que nos faziam companhia. À noite, minha futura namorada passou mal e não quis sair do hotel para jantar com o grupo. Os dois sócios no aluguel do Chevrolet reivindicaram as chaves e os documentos do carro para passear e jantar fora.

Ali por volta das dez da noite a namorada melhorou e saímos a pé, o galã de chapéu de feltro e sobretudo de lã, ela em vestido de noite, para comer qualquer coisa num dos restaurantes da Collins.

Dobrada a esquina, lá estava o Chevrolet estacionado ao longo do meio-fio, vidros abertos, sem chave na ignição ou documentos no porta-luvas.

Acontece que o Chevrolet daquele tempo tinha uma espécie de orelha, em torno do buraco onde se enfiava a chave, que, na dependência da forma de desligar o motor, permitia que o carro funcionasse torcendo a tal orelha. E o nosso conversível, de capota fechada, fora desligado permitindo a ligação do motor através da orelha.

Procurei nos restaurantes do entorno e não encontrei os sócios. Assumi o volante, jantei com a bela jovem num restaurante a alguns quarteirões, voltamos para o hotel… e nada de encontrar os sócios com os documentos e as chaves do carro.

Uma hora da manhã, partida do ônibus para Lafayette prevista para as cinco da matina, peguei o carro para procurar os sócios. Voltei à Collins, parei no lugar onde tinha encontrado o veículo e desci para botar moeda de 10 centavos no parquímetro, sem saber que o pagamento era dispensado a partir das cinco da tarde.

Um carro da polícia, luzes apagadas, parou de esguelha diante do Chevrolet e o imenso policial me alcançou no parquímetro: “Este carro é seu?”. Expliquei que era. E ele, do alto dos seus dois metros: “As chaves e os documentos?”. Expliquei que não os tinha. E isso num inglês que até hoje é nenhum.

Rápida revista à procura de armas, um dos policiais assumiu o volante do Chevrolet, o outro me empurrou para o banco do carona da viatura, pegou o microfone e avisou: “Prendemos o Chevrolet conversível e o ladrão”.

Sirena ligada, a duzentos por hora, num átimo chegamos à delegacia, onde fui desembarcado na parte dos fundos, passando pelas celas gradeadas em aço inox, cheias de bandidos, até chegar ao cubículo de identificação, com aquele vidro em que o criminoso é visto de fora para dentro.

Os sócios, quando viram minha cara de susto atrás do vidro, comentaram qualquer coisa, e o delegado perguntou: “Vocês conhecem o preso?”. Uma das moças, que falava bom inglês, explicou: “Ele é o dono do carro”. E o delegado, dois imensos revólveres nos coldres, botas, roupas de caubói: “Bota para fora!, que eles são franceses e são todos doidos”.

Com as chaves e os documentos voltamos ao Chevrolet seguidos por uns dez policiais, que desejavam saber o que tinha acontecido. A moça que falava inglês explicou o episódio. Abandonaram o Chevrolet na Collins Avenue porque o sócio dirigia muito mal. Peguei o carro mais tarde, os sócios deram parte do furto e fui preso logo depois.

Entre a queixa na delegacia e a minha prisão não se passaram dez minutos. Os policiais explicaram que havia mais de 300 viaturas à procura do Chevrolet e que os carros roubados, quando não eram localizados poucos minutos depois do crime, sumiam para sempre.

 

Diuturno – Muita gente confunde diuturno com “diurno e noturno”, quando significa “que se prolonga, prorroga ou protela no tempo; prolongado, longo, demorado.

A diuturnidade das ações policiais noticiadas pelos telejornais é assustadora: você liga a tevê e constata que a Polícia Federal está realizando buscas e apreensões em três endereços de um ministro de Estado e senador da República com mandato até 2019.

Na véspera vimos buscas, apreensões e prisões de outros figurões da mesma República; amanhã e depois teremos cenas parecidas, mostrando que as instituições “estão funcionando”.

Dez da matina, dia 14 de setembro, toca a campainha no exato momento em que este belo suelto chegou a “estão funcionando”. Era o barbeiro agendado para amanhã, que antecipou o serviço por falta de clientes em seu salão. Cortou-me o cabelo, queixou-se da crise, recebeu os cobres, voltou para o salão. Fui ao banho e voltei para fechar o blogue, Segunda-feira a gente comenta o final de semana.

Mudanças, De avestruz e Pergunta

Mudanças – “Todo o mundo é composto de mudança/ Tomando sempre novas qualidades” poetou Camões vários séculos antes dos atuais falares sexuais.

Foi-se o tempo da veadagem e do lesbianismo, em que o sujeito era veado e a sujeita sapatão. Homossexualidade virou opção sexual, aquilo por que se opta; uma de duas ou mais possibilidades pelas quais se pode optar.

A conversa dos gêneros evoluiu para os transgêneros e a orientação sexual deve ter atingido a perfeição nos casos de desorientação sexual, quando a pessoa muda de sexo, se arrepende e volta atrás. Os jornais da semana passada noticiaram um caso de desorientação.

E a Ela Revista, edição de 10 de setembro, fez matéria de capa: “Carol Duarte, quem é esta garota?”. Pois muito bem: a garota faz sucesso na novela “A Força do Querer”, da Globo, e nos últimos quatro anos vive tórrido romance com a namorada Aline Klein.

Banheiros unissex são festejados até nas universidades como se fossem mais importantes que o controle do fogo e a invenção da roda. E o delator Joesley Batista, açougueiro-geral da República, que só diz “nós vai”, conquistou a baianinha de rosto bonito, sotaque horrível e pernas finas, que apresentava o Jornal da Band, com um “nós vai se casarmos”.

Mais que jatinhos e apartamentos em Nova York, “nós vai” fala aos corações sensíveis e aos gravadores indiscretos. Só falta o Zé Eduardo moer o Supremo. Tristes trópicos!

 

De avestruz? – A expressão popular “estômago de avestruz”, com 306 mil entradas no Google, tem sido usada para definir pessoas que comem de tudo e não passam mal, a exemplo da maior ave vivente, da família dos estrutionídeos (Struthio camelus) chamada avestruz, substantivo de dois gêneros.

Até então, entendia-se por “comer” a ingesta de alimentos e objetos diversos. Diz-se que o suco gástrico de avestruzes é até capaz de dissolver metais.

Mas há coisa pior, muito pior do que comer de tudo e não passar mal: é comer o incomível visando a alcançar prestígio, poder, ministérios, altos cargos públicos. Comer o incomível implica a necessidade de acrescentar ao suco gástrico, que dissolve metais, um estômago cardoso,  em que o cardo seja abundante.

 

Pergunta – Com todo o respeito, concessa venia, existe coisa mais chata que uma sessão do Supremo Tribunal Federal?

Ouvir, Mandados, Pergunta e Cullpa

Ouvir – Ao contrário do que veiculam atualmente as tevês e os jornais, houve tempo em que as mulheres se interessavam pelos homens. Interesse amoroso não necessariamente pelos mais belos, ricos, brilhantes ou famosos exemplares da espécie.

Nunca fui tipo de beleza, rico, brilhante ou famoso, mas tive uma característica que cativou alguns corações: sou bom ouvinte. Ainda que não esteja ouvindo nada do que me conta uma senhora, na barulheira de uma festa, procuro ouvir o que fala.

Foi assim em Lavras, Sul de Minas, mesa comprida, comensais ligeiramente trêbados, quando me sentei diante de uma senhora cujo marido, na outra extremidade da mesa, monopolizava as atenções. Tido como economista brilhante, fazia política no PMDB e cobrava 10% para administrar a fortuna de sua mulher, “dona” de conhecido município paulista.

Ela, do lado de cá, falava para um Eduardo que não ouvia absolutamente nada, mas, educadíssimo, prestava atenção. Médico amigo, sentado a meu lado, diagnosticou: “Eduardo, esta mulher está dando em cima de você”.

Estava. Nunca fui beijado e abraçado com tanta sofreguidão como naquela tarde, quando o casal se despedia ao voltar para São Paulo. Entre outras coisas, a mulher pedia: “Vai com a gente agora. Jura que vai me visitar” e isso me agarrando com imoderado desejo sensual. Releva notar que era muito comível, mas o philosopho quase cinquentão, sem-vergonha como ele só, andava navegando em águas muito mais novas.

Agora, com os furacões que assolaram o Caribe, me lembrei de outra cantada que levei há cerca de 15 anos. Jantar de inenarrável luxo em Belo Horizonte: casa, bebidas, comidas, negócio que só vendo para acreditar. E isso na capital de todos os mineiros.

Terno e gravata caprichados, camisa branca impecável, lavanda Classic da Kanitz atrás das orelhas, sentei-me à mesa diante de uma senhora dona de uma porção de empresas no Brasil e na Europa, bem como de uma ilha no Caribe.

Ilha em que tem alguns sócios, mas ilha particular a que se tem acesso de lancha depois de pousar, noutra ilha, em aeroporto internacional. Praias “paradisíacas”, pois tudo no Caribe é paradisíaco – resort, piscinas, comidas, bebidas, funcionários.

E o Eduardinho jantando em BH defronte da poderosa, tentando ouvir as coisas que ela contava sem parar. Antes do charuto cubano trazido pelo maître, recebi convite para visitar com ela o Caribe. Feliz da mulher que pode ter como ouvinte um cavalheiro bem-ajambrado, com lavanda Classic, da Kanitz, esfregada atrás dos pavilhões auriculares.

 

Mandados – Morro de rir dos mandados de busca e apreensão nas residências dos bandidos de alto coturno tipo Joesley e Saud. São mandados que podem funcionar nas casas de traficantes de meia-tigela, que guardam tiquinhos de maconha, crack e cocaína para vender na vizinhança, mas bandido de alto coturno não é bobo de deixar em casa documentos comprometedores. Uma cidade como São Paulo tem mil e um lugares onde o bandidão pode esconder o que deve ser escondido. Ou, então, guarda os vídeos no exterior como Saud e Joesley.

 

Pergunta – Ricardo Saud, executivo da JBS, é muçulmano sunita, xiita ou alauita?

 

Cullpa – O ex-presidente Collor de Mello e o ex-procurador Marcello Miller têm cullpa em cartório.

Drogas, Valores e Balanço

Drogas – Proibir as drogas enseja os crimes do tráfico, não impede o consumo das drogas, evita a cobrança de impostos sobre o comércio regular. Durante 60 anos ingeri bebida alcoólica sociocavalarmente, neologismo para beber socialmente em doses cavalares. Ingerir bebida alcoólica em vez de beber, de ficar de porre, de tomar um pileque, é novidade que muito me diverte na tevê. Ninguém bebeu; todos ingeriram bebida alcoólica.

No capítulo da proibição, a lição da Lei Seca norte-americana foi esquecida pelos legisladores do mundo inteiro quando cuidam das outras drogas.

José Celso Martinez Corrêa, 80 anos, foi entrevistado pela jornalista Marcela Paes, do Estadão, sobre sua briga com o grupo Sílvio Santos. Antes de começar a falar, o dramaturgo avisa que vai fumar um baseado, mas já volta: “Eu fumo maconha há mais de 50 anos. Além do divertimento, ela permite que se tenha uma percepção maravilhosa das coisas”, explica.

Dá para imaginar o tanto de impostos que o dramaturgo deixou de pagar nos mais de 50 anos e o tráfico que estimulou em busca da sua visão maravilhosa das coisas.

Visão proporcionada aos brasileiros pela foto colorida da sala de um apartamento em Salvador, BA, usado pelo baiano Geddel Vieira Lima, político filiado ao PMDB, 58 anos, casado com Alessandra, pai de Juliana e Mariana Vieira Lima.

Despido de móveis e quadros, o apartamento soteropolitano, através da foto, proporcionou ao mundo a visão de 14 imensos volumes entre malas e pacotes transbordantes de dinheiro em notas de 50 e 100 reais, totalizando 51 milhões de reais.

Ricardo Boechat transformou os reais em dólares e descobriu que a importância corresponde ao 7º assalto até hoje listado na história do planeta.

 

Valores – Você sabia que a JBS tem valores? Pois é, valores estampados em sua página oficial e nas fachadas de muitas das suas fábricas, como Atitude para agir obstinação naquilo que faz, Determinação para cumprir seus compromissos, Disciplina que não cria justificativas e desculpas, Disponibilidade de estar sempre pronto e ter o trabalho como prioridade, Simplicidade que descomplica e desburocratiza, Franqueza direta, verdadeira e transparente em suas realizações, Humildade para saber ouvir, ser atencioso, considerar a opinião dos outros, agir com respeito, não se preocupar com status nem se achar o dono da verdade.

E tem Crenças como o respeito à diversidade étnica, religiosa e no repúdio a qualquer forma de discriminação: Governança Corporativa, Meio Ambiente, Recursos Humanos, Sustentabilidade enfatizando a ÉTICA, conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de uma sociedade.

Os resultados de tais valores têm sido vistos e ouvidos pelo Brasil inteiro, merecendo resumo: cambada de filhos da puta.

 

Balanço – Quatro pessoas mortas no trânsito da Flórida, entre milhões que fugiam do maior furacão dos últimos 100 anos, enquanto em Mimoso do Sul (ES) onze morriam numa trombada na BR-101.

Chacrinha, Geddel, Furacão F1, Luz, Maçonaria e Eles foi…

Chacrinha – Os 100 anos do nascimento de José Abelardo Barbosa de Medeiros (Surubim, PE, 30.9.1917), conhecido como Chacrinha, ensejam homenagens no rádio e na televisão, veículos em que o pernambucano se notabilizou.

Na Globo, o número do telefone anunciado durante os seus programas era rigorosamente igual ao do meu telefone de Juiz de Fora, MG, diferindo somente nos algarismos iniciais, que identificam o Rio ou Juiz de Fora.

Daí que muitas pessoas erravam ao discar e o telefone tocava na minha sala: “Quero falar com o Chacrinha”. Como era impossível explicar o erro a um sujeito que telefonava para o Chacrinha, adotei explicação padronizada: “Seu Abelardo está gravando”. Todos agradeciam emocionados, educadíssimos, felizes de ouvir a voz de um funcionário de José Abelardo Barbosa de Medeiros.

 

Geddel – Os pastores do PSC-BA, Partido Social Cristão, quando embarcaram numa candidatura de Geddel Vieira Lima ao governo da Bahia, disseram que seu nome tem significado cristão: “o homem que engrandece”.

O deputado federal e membro da Assembleia de Deus, Milton Barbosa (PSC-BA), no Encontro Regional das Assembleias de Deus, abençoou a caminhada do então ministro Geddel, com o apoio entusiasmado do pastor Valdomiro Pereira.

Tenho diversos dicionários etimológicos da língua portuguesa, alguns raríssimos da melhor supimpitude, procurei neles todos e não encontrei Geddel.

Agora, baseado na informação dos pastores do PSC e nas fotos do dinheiro estocado no apartamento baiano, concluo que o significado cristão pode estar certo, pois engrandecer é aumentar, crescer, tornar maior, ficar grande, conquistar mais – tudo que Geddel Vieira Lima tem feito quando rouba neste país grande e bobo.

Ainda assim, Gordo Estabanado Deixa Digitais ELadroeira, mais que possível, é etimologia confirmada pelos fatos.

 

Furacão F1 – Nos conformes do noticiário das tevês brasileiras, o Furacão Irma não foi da Categoria 5, mas da Categoria F1. Isso porque, dependendo da emissora, a velocidade dos ventos variava de 185 km/h a “quase” 300 km/h, como nas corridas de Fórmula 1.

Algo me diz que os jovens jornalistas confundiram quilômetros com milhas, considerando que 185 milhas por hora correspondem a 296 km/h.

Enquanto isso, no feriado de quinta-feira uma jornalista de economia, alfabetizada, soltou um “eu teria trago”. Melhor faria se soltasse um pum.

 

Luz – Dia 7 de setembro, 4h40min da madrugada, o único satélite da Terra, cuja evolução em torno do nosso planeta dura cerca de 28 dias e 8 horas, quis ter a gentileza de, refletindo a luz do Sol, iluminar o quarto de cama do philosopho. Por mais que envelheça, o referido philosopho não se cansa de admirar a Lua.

 

Maçonaria – Churchill, Lincoln, Napoleão, Mark Twain, Carlo Collodi, Beethoven, Albert Schweitzer, Benjamin Franklin, John Huston, Diogo Antônio Feijó, Stendhal, Chaplin foram maçons, contou Ignácio de Loyola Brandão em sua crônica de 1º de setembro no Estadão.

Claro que o humor de Mark Twain, a música de Beethoven, a genialidade de Chaplin não eram consequência da maçonaria, mas, se foram mesmo maçons, engrandeceram a “instituição de caráter universal, sociedade filosófica, filantrópica, iniciática e progressista” (fonte: Wikipédia).

Sempre se disse que a maçonaria tem um prestígio danado. Pena que não se organize para dar um jeito no Brasil. No BB tive colega maçom, excelente patrício, figura singular que acumulava as funções de agente secreto do Regime Militar de 64.

Andava armado, tinha duas filhas e residia no Mangue, então conhecido como bairro do mais baixo meretrício do Rio. Suas filhas saíam de casa para tomar o ônibus seguidas à distância pelo pai. Sempre que algum engraçadinho bulia com uma delas, o pai encostava a ponta do revólver nas costelas do galã para explicar que a moça tinha família.

Quadro tão absurdo que parece mentira, mas foi a mais pura verdade. Nordestino, baixinho, o colega cumprimentava com o aperto de mão que inclui um sinal maçom. Apresentado pela terceira vez a um sujeito, repetindo o sinal no aperto de mão, notou que o tal cavalheiro, por sinal meu amigo, devolveu o sinal. Perguntou: “O senhor é maçom?” e ouviu a explicação: “Não, senhor. É que o senhor sempre me cumprimenta assim”.

Virgem de convites para a maçonaria, não escapei do Rotary, uma única sessão, quando constatei que começam as reuniões batendo palmas para o pavilhão nacional. Na flor dos meus vinte e poucos aninhos, achei que já tinha passado da idade de aplaudir a bandeira do Brasil.

Bastou-me a letra do hino, que decorei no curso primário: “Salve lindo pendão da esperança!/ Salve símbolo augusto da paz!/ Tua nobre presença à lembrança/ A grandeza da Pátria nos traz”. É dose.

 

Eles foi… – “Nós não vai ser preso, Ricardinho” profetizou Joesley, o Nostradamus do banditismo nacional. Mau profeta, ferrou-se. Desde ontem “eles foi preso”.

Gravação e Vuelta à España

Gravação – Joesley Batista, o açougueiro-geral da República, gastou quatro horas de conversa gravada com seu sócio Ricardo Daud para constatar uma verdade que poderia ser dita, à sua moda, em quatro palavras: “Nós é bandido, Ricardinho”.

 

Vuelta à España – Sempre que possível, gosto de assistir às etapas diárias da Vuelta à España, prova internacional de ciclismo. Os locutores falam pelos cotovelos e deixam passar batidas as aldeias várias vezes seculares – castelos, fortalezas e monumentos de incalculável valor histórico.

Estradas nem sempre boas, algumas ruins ou péssimas, sem acostamentos, estreitas até para bicicletas, casas esparsas ao longo das montanhas. Solos muitas vezes horríveis. Milhões de oliveiras aproveitando trechos menos ruins. Num trecho de serra, árvores bonitas plantadas em terras nuas, sem qualquer outro tipo de vegetação, uma graminha, um matinho, nada de coisa alguma: só árvores bonitas de bom tamanho. Presumo que produzam diversos frutos secos, indeiscentes, com uma semente como as nozes, plural de noz, do latim nux,cis ‘todo fruto de casca ou que é de casca dura’.

Em seus 504 mil km2 a Espanha deve ter estradas e solos ótimos, mas os organizadores da Vuelta ciclística têm motivos para escolher regiões singulares. Nos trechos próximos do País Basco há casas simpáticas, cobertas de telhas de barro, e pastagens de ótima qualidade.

Nos finais de cada etapa, como acontece no ciclismo italiano e no francês, milhares de idiotas invadem as pistas prejudicando a passagem dos ciclistas, ainda que raros policiais fardados, distribuídos nas laterais da pista, intervenham para tentar impedir as manifestações dos imbecis.

Feriadão, Consultor, Improviso, Aspirador e Blogue

Feriadão  “Laços fora, soldados! Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a Independência do Brasil” teria dito o príncipe-regente dom Pedro às margens do riacho Ipiranga no dia 7 de setembro de 1822. Tudo inventado pela historiografia patriótica.

Testemunha ocular e olfativa da cena, o padre Belchior Pinheiro contou que o príncipe-regente, depois Pedro I do Brasil e Pedro IV de Portugal, vinha de quebrar o corpo às margens do riacho Ipiranga agoniado por uma disenteria com dores que apanhara em Santos.

Portanto, o país nasceu numa cagada que explica e justifica o quadro que aí está com os açougueiros da JBS enrolados numa gravação de quatro horas (!) envolvendo até ministros do STF e outros figurões da República.

De cambulhada, novo feriadão: 7, 8, 9 e 10 de setembro. Tristes trópicos!

 

Consultor – Conheço-o pessoalmente, um único encontro numa festa, é cavalheiro simpático e educado. Tem sido apresentado como “consultor”, que ou aquele que dá conselho, sem que se explique a natureza dos conselhos que dá.

Notabilizou-se, faz tempo, quando comeu a primeira-dama de um país grande e bobo. Hoje, consultor supimpa deve ser aquele que aconselha na França de Emmanuel Macron, casado com Brigitte Marie-Claude Trogneux, senhora de 64 aninhos.

 

Improviso – Não lhe digo o nome porque é moça linda, de bela voz, que trabalha honestamente como apresentadora de uma de nossas tevês a cabo. Acontece que improviso é o diabo. Saudoso amigo inteligentíssimo, cultíssimo, orador brilhante, figura solar da intelligentsia brasileira, contava do seu discurso de improviso ao inaugurar, como secretário de Educação do Estado de Minas Gerais, um seminário rural.

Dia lindo, autoridades constituídas, gente à beça, meu amigo deitou e rolou antes de dizer de sua alegria pela inauguração “deste cemitério rural”.

A moça linda improvisou ao relatar, dia 2 de novembro, a cerimônia em que uma família, depois de perder um parente atropelado, reuniu populares no local do acidente para advertir sobre os riscos de circular naquele trecho.

E a jornalista improvisou: “A família quer evitar que essa tragédia não se repita”.

 

Aspirador – Lava-jato envolve a limpeza de objeto de valor, veículo automotor que pode custar centenas de milhares de reais, como graúdos são os peixes enredados na operação homônima. É triste constatar que o Brasil também precisa de uma Operação Aspirador para limpar o pó da corrupção em todos os níveis.

Ainda agora, pela prisão dos traficantes que “exportavam” toneladas de cocaína pura para a Europa, ficamos sabendo que a Polícia Federal apreendeu, num ano, seis mil quilos de cocaína pura, no valor aproximado de meio bilhão de reais.

As quadrilhas empregam peixinhos miúdos, porteiros, faxineiros, motoristas, vigias, controladores de câmeras, iluminadores e outros funcionários subalternos do Porto de Santos, e são controladas diretamente dos presídios pelos chefões das organizações criminosas.

 

Blogue – Amanhã, feriado nacional, o caro e preclaro leitor merece folga para curtir a data livre destas bloguices.

Haiti e Seleções

Haiti –Depois de 13 anos a serviço da ONU, as tropas brasileiras terminaram sua missão no Haiti. Viajou com o ministro Jungmann, da Defesa, para participar da cerimônia de encerramento, o senador Fernando Collor (PTC-AL), prova de que o Haiti não dá sorte. Além do terrível terremoto de 2010, com presumíveis 200 mil mortos, recebe a visita “oficial” de um senador acusado de uma dúzia de roubos gravíssimos. Fazendo política, Fernando Affonso Collor de Mello seria indigno do posto de vereador em Canapi, mas é senador da República.

Houve quem sugerisse um novo Plano Marshall para recuperar o Haiti. Conhecido oficialmente como Programa de Recuperação Europeia, o Plano Marshall foi o principal programa dos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados da Europa nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, iniciativa que recebeu o nome do Secretário de Estado dos Estados Unidos, general George Catlett Marshall Jr. (1880-1959).

Reconstrução significa “ato ou efeito de reconstruir” possível na Europa, impossível no Haiti. Como reconstruir algo que nunca foi construído? Mais inteligente seria um Plano Collor conduzido pelo próprio senador, que juraria abandonar a Pombajira adotada na Casa da Dinda, subdivisão da linha de Iemanjá na umbanda esotérica, aderindo ao vodu haitiano.

 

Seleções – Nas eliminatórias para a Copa de 2018, jogos transmitidos ao vivo e em cores pelas nossas tevês, sociólogos, historiadores e a mais gente que se dedica aos estudos nesses campos têm assunto para escrever uma porção de livros sérios.

Partindo do fato de que raça pura não existe, fiquemos com as cores das peles dos jogadores que atuam por suas seleções nacionais. A Europa e os países nórdicos estão popularmente associados às peles brancas, o que não impede a seleção francesa de utilizar normalmente oito negros entre seus 11 atletas. E conseguiu empatar com a seleção de Luxemburgo, país com pouco mais que 500 mil habitantes, rivalizando em população com o município de Juiz de Fora, MG.

A seleção da República Checa tem 10 brancos e um preto, aliás chamado Selassiê. A Dinamarca, país do tamanho da área amazônica da Renca (Reserva Nacional de Cobre e seus Associados), que está dando um bololô dos diabos, tem 10 brancos e um preto, enquanto a Holanda, jogando futebolzinho de quinta categoria, tem três atletas de cor. Húngaros branquíssimos, vários portugueses com alguns pés e as respectivas chuteiras em África. Poloneses brancos, um alemão escuríssimo, presumo que os noruegueses sejam brancos, mas não vi o jogo.

Tudo, insisto, no terreno da cor da pele, que “raça pura” só existe por iniciativa dos criadores de animais das diversas espécies, quando convencionam o padrão racial para que o bicho seja considerado “puro”.

Ficou célebre o caso de famoso criador que pintou de preto a vassoura do rabo de um dos seus touros nelore, para enquadrá-lo no padrão da raça. Por mal dos pecados, numa exposição alguém se lembrou de segurar na vassoura do touro e a tinta sujou sua mão. Lavada, a vassoura deixou de ser preta, o nelore foi desclassificado e o expositor ficou desmoralizado.

Estupro e Economia

“Estupro” – Bombou neste belo blogue o comentário sobre a “escritora” desbocada (“Queria chamar de ‘tentativa de estupro’, mas foi estupro mesmo, Tava bêbada? Tava. Foda-se.”) que se queixou de um motorista da Uber. Na opinião meditada dos caros e preclaros leitores, o dedo do motorista só ficou imundo depois da dedada na calcinha da bêbada.

Enquanto seu lobo não vem, um cidadão foi detido por ejacular (emitir esperma) no pescoço e no rosto da passageira de um ônibus na Avenida Paulista, centro da cidade de São Paulo. O cidadão tem 17 passagens pelas delegacias paulistanas como ejaculador. Não pode ver passageira de ônibus que não ejacule. Foi solto no dia seguinte e reincidiu anteontem.

A partir da penúltima ejaculação, preso em flagrante ejaculatório, o juiz que o soltou, o Tribunal de Justiça, a Associação dos Magistrados ejacularam tantas besteiras sobre leis, letra da lei, códigos etc., com tamanho conhecimento de causa, que emporcalharam o noticiário.

Aquele negócio do “nullum crime sine lege” (não há crime sem lei anterior que o defina) é muito bonito para mostrar que o sujeito estudou Direito, mas não tem cabimento no caso paulistano. É claro, como também é lógico e evidente, que ninguém pode ejacular sem autorização no pescoço e no rosto dos outros.

No tempo em que havia amor hétero, uma namorada portuguesa podia pedir “Dá-me o teu caldinho”, mas num ônibus é crime hediondo que pede cadeia imediata até que se defina o número de anos que o animal deve permanecer preso.

 

Economia – Ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar, economia é assunto dos mais complicados.

Por mais que me esforce, nunca entendi nada do que vejo e leio por aí. Há coisa de 30 anos, meu Opalão transportava um tanque adaptado para 140 litros de gasolina, única forma de viajar nos finais de semana em que os postos eram proibidos de vender combustível. Viajando muito, acabei merecendo o apelido “Noventa” pelos frentistas do Roselanche, de Barbacena, quando viam meu carro aceitar 90 litros num tanque suposto de só receber 80.

Nesse tempo, 100 litros de gasolina correspondiam a um salário mínimo. Acertei com os donos de uma revista agropecuária o pagamento de crônica mensal de dois salários mínimos ou de 200 litros de gasolina, oscilando conforme o maior valor. Nos meses em que o salário era maior que 100 litros, me pagavam dois salários. Quando a relação se invertia, pagavam 200 litros.

O negócio funcionou assim durante algum tempo, até que o salário se descolou dos 100 litros e a diferença foi aumentando. Hoje, com um salário você compra mais que 200 litros.

A combinação ficou injusta, pois no mercado minha crônica não valia aquela “fortuna”, e a colaboração foi fixada em 200 litros. Daí a dificuldade que também tenho para entender, desde sempre, as oscilações do dólar americano. Há períodos em que o dólar vale uma fortuna, como há períodos em que vale uma tuta e meia, mistério que só os economistas tentam explicar.

Fufuquear, Toscanini e Escritora

Fufuquear – J. B. Serra e Gurgel, na 8ª edição de seu Dicionário de Gíria, diz que fufuquear é fazer sexo. Assunto que vem à balha, sempre mais chique do que vir à baila, com o deputado André Fufuca (PP-MA) presidindo a Câmara Federal na ausência do presidente Rodrigo Maia e do vice-presidente Fábio Ramalho.

No mesmo Dicionário, Serra e Gurgel informa que “fudeu!” significa “deu tudo errado!”. Faz tempo que o Brasil atravessa período em que tudo dá errado, já por incompetência dos seus dirigentes, já pela corrupção em todos os níveis.

Médico, o deputado André Luiz de Carvalho Ribeiro, mais conhecido como André Fufuca, nascido em 1989 em Santa Inês, Maranhão, Brasil, com sua bela cabeleira negra penteada para fazer inveja aos carecas do Congresso, ainda quando não consiga resolver os problemas nacionais, permite que o comentário “fudeu!” seja alternado com “fufucou!”, diferente de fufuquear, isto é, fazer a melhor coisa da vida.

 

Toscanini – Arturo Toscanini (1867-1957) foi um gênio da regência musical. Prestou à humanidade serviço inestimável no campo da música clássica. Seu talento jamais esteve a serviço do fascismo de Benito e ao nazismo de Adolfo.

Como todo gênio tinha certas maluquices, sobretudo e principalmente no terreno sexual. Por exemplo: mandar um lenço pelos correios pedindo a uma de suas namoradas, a pianista italiana Ada Mainardi, que o devolvesse, também por via postal, empapado de seu sangue menstrual.

Há que desconfiar dos gênios. Faz tempo que desconfio do ministro Sarney Filho, o Zequinha, cuja invulgar genialidade foi descortinada por sua avó Kyola Ferreira de Araújo Costa. 

Desde 14 de julho de 1957, quando veio à luz na cidade de São Luiz, capital do glorioso Maranhão, Zequinha tem sido avaro da genialidade anunciada por dona Kyola, mas a nação respeita a antevisão avoenga e continua procurando um sinal, uma palavra, um gesto que possa demonstrar a genialidade de sua excelência.

 

Escritora – Clara Averbuck, 38 anos, se apresenta como escritora. É fácil. Escritor não precisa de diploma como advogado, médico, dentista, engenheiro.

Matéria de meia página no Estadão, com foto colorida de 12 x 14,5cm, apresenta a escritora branca, plus size, rosto bonito, tatuagem pavorosa de ombro a ombro abaixo o pescoço, educadíssima: “Queria chamar de ‘tentativa de estupro’, mas foi estupro mesmo, Tava bêbada? Tava. Foda-se”, escreveu a gorducha ao acusar um motorista do Uber de ter enfiado “um dedo imundo em mim”.

 A partir do “Foda-se” a matéria é irrelevante. Pouco importam o limpamento do dedo enfiado na “calcinha mínima” da bêbada, a demissão do motorista do Uber, o auê aprontado pela escritora, o conceito de estupro que pressupunha “cópula vagínica” e hoje serve para tudo, até para dedo imundo em calcinha mínima.

Pena que o Estadão gaste papel e tinta com uma bêbada plus size, que em catalão é més mida, em zulu ubukhulu besayisi, em italiano taglia grossa e em latim plus amplitudo, como ensina o Tradutor Google, esclarecendo que digitus turpis, ainda na língua indo-europeia falada pelos habitantes do Lácio e pelos antigos romanos, desde o século VII a.C., significa dedo imundo.