Descompasso

Descompasso – É fraca a interação entre partículas elementares subatômicas (léptons), também presente no decaimento de hádrons, e que é responsável pelo decaimento beta; sua magnitude é aproximadamente 10-12 vezes a da interação forte.

Antes que você pense que fiquei maluco, devo informar que copiei a preciosa informação no verbete “integração” do Houaiss eletrônico, porque resolvi falar das muitas “interações” que vemos por aí. A primeira das quais deve ser aquela das transmissões esportivas, em que o locutor informa: “Fulano de Tal, de Catolé do Rocha, está com a gente”.

Ora, só um Fulano totalmente idiota perde seu tempo em Catolé do Rocha, belo município paraibano vizinho do Brejo da Cruz, para interagir com o locutor televisivo. Interação, de resto, que não interessa aos demais telespectadores. E a imbecilidade tomou de assalto a maioria de nossas transmissões esportivas.

Concomitantemente, as grandes redes de tevê se esquecem de noticiar os horários das transmissões dos programas do mesmo grupo. Nada mais difícil, nos canais do Grupo Globo, do que descobrir a hora e o dia da transmissão das corridas de StockCar, que encantam os que gostam de automobilismo. Escusado é dizer que as transmissões das corridas de StockCar têm patrocinadores; portanto, geram lucros para as redes televisivas.

Por falar em automobilismo, domingo passado a Globo exibiu demorado programa sobre as virtudes dos Lamborghinis, a pressão aerodinâmica que “cola” a traseira do carro nas curvas e outras virtudes dos produtos italianos hoje controlados pela Volkswagen. Quantos brasileiros podem comprar um Lamborghini? Eike Batista tinha um na sala de sua casa e faliu, coitado.

Lamborghinis e outros veículos do mesmo naipe não conseguem passar por cima nos nossos quebra-molas, daí a necessidade de exibi-los nas salas de visitas de nossas casas.

Não sei se é verdade, mas me contaram que ilustre jogador de futebol na Inglaterra tem um automóvel que não entra em Bicas, MG, sua cidade natal. Assim, quando visita sua família, o atleta precisa deixar o carro fora da cidade e tomar um outro capaz de encarar os quebra-molas biquenses.

Quantos quilômetros de estradas nacionais permitem a circulação de Lamborghinis? Nossas leis permitem que se ande a 200 km/h fora dos autódromos?

Cês querem saber de uma coisa? Vou parando por aqui para voltar à tevê, fugir das análises das pesquisas do Ibope, do Datafolha, e ver se encontro um joguinho de futebol sem muitas interações com os catoleenses.

Agaricáceas

Agaricáceas – Auspiciosa, animadora, estimulante a perspectiva de renovação dos quadros do Congresso Nacional. Só o Estado do Rio promete mandar para a Câmara Federal a graciosa filha do presidiário Eduardo Cunha, de mesmo passo em que os filhos dos presidiários Sérgio Cabral e Jorge Picciani também serão eleitos. Pena que a esposa do Nem da Rocinha não seja candidata. Outros estados desta República Federativa capricham na escolha dos nomes. Dilma Rousseff, a Búlgara, vai enriquecer o Senado Federal com o seu dilmês. E uma apresentadora da inacreditável TV Integração, afiliada da Globo, depois de noticiar a trombada de frente de dois automóveis numa rua de Juiz de Fora, tranquilizou os telespectadores informando que “nenhum dos motoristas ficaram feridos”.

Enquanto seu lobo não vem, há gente que acredita na “confiabilidade” das urnas eletrônicas, como também há gente que acredita no “mestre espiritual” Sri Prem Baba, 52 anos, nascido Janderson Fernandes, que atuou como massoterapeuta, instrutor de ioga, acupunturista e xamã.

Ainda bem que Stormy Daniels, atriz, roteirista e diretora pornô americana, contou detalhes de suas relações sexuais com Donald J. Trump no livro “Full Disclosure”, “divulgação completa” no Tradutor Google.

No texto, ela chega a comparar o órgão genital de Trump com um personagem do famoso game Mario Kart: “Eu estou lá deitada, entediada com um cara com pelos pubianos do tipo Abominável Homem das Neves e com um pênis que parece o personagem de cogumelo do Mario Kart”, conta Stormy, que transou com Trump em 2006; “Ele sabe que tem um pênis incomum. Menor que a média, mas não assustadoramente pequeno”.

Cogumelos atômicos assustam gregos e troianos; champignons encantam gourmets, se comestíveis da família das agaricáceas (Agaricus spp.) frequentemente cultivados. Stormy, Melania e outras belas senhoras podem avaliar o pinto em forma de champignon.

Também incomum é a bundinha arrebitada da linda norte-coreana que acompanhava o líder Kim Jong-un  ao receber o presidente da Coreia do Sul e sua mulher. Bundinha que talvez seja da irmã de Kim, ou de Ri Sol-ju, sua mulher desde 2009.

Na Coreia do Norte as informações ainda são meio complicadas, enquanto nos Estados Unidos e no resto do planeta todos sabem do cogumelo que Donald transporta em sua floresta pubiana.

Noticiário

Noticiário – A troco de quê, por ordem de quem, a PF e os fiscais da Receita Federal retiveram a bagagem do ilustre vice-presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Nguema Obiang Mangue, filho do presidente daquele país amigo do Brasil?

Tão amigo que seu ilustre presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo decretou o português como língua uma língua oficial do país junto com o espanhol e o francês. A Guiné Equatorial foi colônia da Espanha até 1968 e sua população, em 2016, era de pouco mais de um milhão e duzentos mil habitantes.

Teodoro Obiang Nguema Mbasogo conduz seu país há 35 anos, livrando-o das pesquisas do Ibope e do Datafolha, dos analistas das pesquisas, das entrevistas de candidatos à presidência e das declarações de presidentes de supremas cortes sobre a segurança e a confiabilidade de urnas eletrônicas.

Realmente, num planeta em que os hackers russos, chineses, norte-coreanos & Cia. invadem sistemas considerados os mais seguros, só as urnas eletrônicas brasileiras são invioláveis.

Na bagagem apreendida no Aeroporto de Viracopos, em São Paulo, há uma caixa com relógios de gosto discutível e pequena mala com US$ 1,5 milhão – subnitrato de pó de merda diante da fortuna da família Obiang Nguema.

E o Brasil inteiro vem de aprender os significados de furacão e tufão, rigorosamente a mesma coisa, graças às previsões de milhares de mortos e feridos no furacão que se aproximava da costa leste dos Estados Unidos e ao tufão que se dirigia para as Filipinas e outros países asiáticos.

Quando acaba, andou em torno de 100 o número de vítimas fatais, 10% das mortes anotadas nas chuvas da região serrana do Estado do Rio em janeiro de 2011.

Saúde

Saúde – Esportes são ótimos para a saúde, o que não impede a invenção de esportes absolutamente idiotas. Existe maior imbecilidade que o rugby? Ele mesmo, esporte em que duas equipes de 15 jogadores se enfrentam, usando as mãos e os pés, na tentativa de levar a bola oval até a linha de fundo adversária ou fazê-la passar por entre as traves da meta, sobre aquela linha. São 30 cavalões que poderiam estar trabalhando pelo bem da humanidade, mas perdem o seu tempo e ganham rios de dinheiros com a bola oval.

Assim como eles há os cavalões do futebol americano e milhares de outros “atletas” no mundo inteiro, entre os quais não é possível esquecer os novos octógonos do MMA em que os contendores, homens e mulheres, trocam socos e pontapés.

Eis senão quando, bumba!, descobri outro esporte “original”, a escalada esportiva, que já vai ser considerada esporte olímpico em Tóquio. É um negócio que só vendo para acreditar que tenha sido inventado. Pior que isso: as moças magrinhas são muito bonitas. Os rapazes, magros, todos fortíssimos, fazem vestibulares para lagartixas em diversas paredes “preparadas” para escalar.

Equipes de diversos países, plateias entusiasmadas, juízes e comentaristas na televisão conhecedores e praticantes do esporte. A bela moça que comenta para o SporTV conta  que ela e o marido são escaladores.

Esporte que me fez estabelecer relação com as visitas íntimas, às quartas-feiras, na Penitenciária de Bangu. Um juiz do RJ autorizou o ex-governador Sérgio Cabral, condenado a mais de 150 anos de cadeia, a receber visitas íntimas, presumo que da advogada Adriana Ancelmo, que está em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.

No conforto de Bangu 8, às quartas-feiras, transar com hora marcada e tornozeleira eletrônica deve ser tão complicado quanto escalar uma parede no esporte olímpico.

Lo

Lo – Guitarrista dos Titãs, escritor de sucesso, casado com bela moça, o senhor Tony Bellotto vem de lançar o livro Lô. Não confundir com Lô Borges e LO, como se assina o veterinário Luiz Octávio Pires Leal, membro titular da Academia Brasileira de Medicina Veterinária.

Lo, diacronismo (arcaico) “lo amigo”, pode ser pronome que permite a admirável frase “o segredo disseram-vo-lo sem reservas” e ló, termo de marinha, é o lado de onde sopra o vento, como também pode ser tecido fino e transparente.

Lo é também uma vila e deelgemeente belga pertencente ao município de Lo-Reninge, província de Flandres Ocidental. Há 18 anos tinha 1.114 habitantes numa área de 15,69 km2. Claro que não sei, como você também não sabe, o significado de deelgemeente. Precisamos aprender a língua que se fala em Flandres Ocidental.

Hoje só quero contar que em Lo, no ano de 1886, Jules Destrooper preparou pela primeira vez seus fabulosos biscoitos, até hoje um segredo guardado por sua família.

A Bélgica é um “ovinho” de 30.568 km2, pouco maior que Alagoas, monarquia constitucional, três idiomas (flamengo, francês e alemão), pouco mais de 11 milhões de habitantes, gente que faz biscoitos, cervejas e chocolates como ninguém.

Durante séculos, sempre que possível, mergulhei nas cervejas belgas. Não sou chocólatra, mas me amarro nos biscoitos fabricados por lá como o Jules Destrooper (Almond Thins), que você pode encontrar no Brasil em alguns mercados civilizados.

Culpa

Culpa – O aquecimento global tem sido usado para explicar a fome no planeta, os milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza, que, por sua vez, é de inacreditáveis 232 reais mensais, a queda de Marina Silva nas pesquisas eleitorais, o fato de Eymael e Goulart Filho disputarem palmo a palmo o último lugar, o furacão Florence ameaçando a costa leste dos Estados Unidos, o êxodo venezuelano, os resultados das partidas de futebol  – o aquecimento global explica até o frio que continua fazendo em Juiz de Fora, cidade-polo da Zona da Mata de Minas, e serve para ocultar a verdadeira culpada pela maioria dos problemas da Terra.

Refresco a memória do caro e preclaro leitor com os números que tenho citado vezes sem conto, respeitado o fato de que as locuções “sem conto” e “sem conta” são formas corretas e sinônimas.

Todos os problemas que assolam o planeta em 2018 esbarram numa palavra que entrou em nosso idioma no ano de 1873: demografia. É a ciência que investiga as populações humanas (em aspectos como natalidade, produção econômica, migração, distribuição étnica etc.) sob uma perspectiva quantitativa.

Na esperança de que o caro e preclaro leitor tenha curtido a locução “sem conto”, que pintou no pedaço, informo que a realidade demográfica de 2018 é inteiramente diferente daquela que existia até meados do século passado.

Aqui mesmo no Brasil, todos nos lembramos daquela música de Miguel Gustavo “Noventa milhões em ação, pra frente Brasil…” da Copa de 1970. Pois muito bem: os 90 milhões de 1970 são hoje, transcorridos 48 aninhos, 208 milhões de brasileiros.

No resto do planeta o aumento populacional foi igual ou pior. O “espaço” que havia para receber ondas migratórias não existe mais. Em 1802 a Terra tinha um bilhão de habitantes. Levou 126 anos para alcançar dois bilhões em 1928 e 13 anos para chegar aos três bilhões em 1961. A população do planeta passou dos sete bilhões em 2011.

Todo o espaço que havia para acolher gente até 1928, noventa anos atrás, quando a Terra alcançou dois bilhões de pessoas, já não existe hoje. Daí a complexidade do assunto tratado por alto, muito pela rama, nos casos de centenas, milhares de pessoas que fogem para Bangladesh ou para a Europa, eventualmente para o Brasil.

Culpar o aquecimento global pelo fato de 900 milhões de pessoas passarem fome é fácil, mas desonesto. A culpa está nos quase 8 bilhões de almas que zanzam por aí.

Crônica

Crônica – Noticiando o lançamento do Portal da Crônica pelo Instituto Moreira Salles, Humberto Werneck, com a classe de sempre, escreveu o seguinte:

Você já se cansou de ver um romance levar bordoada. Um livro de contos. Um ensaio. Uma coletânea de poemas. Mas pancada como realização literária – jamais como gênero. Ou vai dizer que já ouviu alguém afirmar que romance ou conto é em si uma porcaria?

Repare: o único gênero em que se dá bordoada é a crônica.

Há mesmo quem diga que a coitada nem sequer é gênero; no máximo, um subgênero jornalístico com pretensões literárias. Mário Faustino, tão bom poeta quanto provocador audaz, via na crônica uma “erva daninha”, “praga” que “deu em quase todo mundo, Bandeira, Drummond…”, capaz de fazer “enorme mal à literatura, desfigurando-a”.

Crítico menos belicoso, Alceu Amoroso Lima não chegava a excessos faustinos, mas em todo caso achava que tais palmos de prosa, por bem realizados que fossem, não tinham envergadura para sobreviver ao jornal ou a revista que os publicava. “Crônica, num livro”, comparava ele, “é como um passarinho afogado”.

Antonio Candido também sabia que a crônica “não tem pretensões a durar, uma vez que é filha do jornal” – “essa publicação efêmera que se compra num dia e no dia seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão da cozinha.” Nem por isso mestre Candido subscreve a ornitologia literária do dr. Alceu: quando a crônica “passa do jornal ao livro”, anotou ele em “A vida aos rés do chão”, “nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava”, na medida em que “pega o miúdo e mostra nele uma grandeza, uma beleza ou uma singularidade insuspeitadas.”

Não cai mal à crônica, assim, o rótulo que Otto Lara Resende viu ser nela aplicado em Portugal: “literatura em mangas de camisa”. E, uma vez que a conversa nos levou ao guarda-roupa das letras, não custa observar que um texto assim trajado – de um Rubem Braga, por exemplo, que, como seus colegas de ofício, escrevia sob a pressão de prazos cruéis e de tamanhos inapeláveis – muitas vezes faz melhor figura que o fraque laboriosamente talhado na emperiquitada alfaiataria de muito romancista.

Mário Faustino, Antonio Candido e o doutor Alceu jazem menos conhecidos e citados que muitos dos cronistas criticados por eles, provando que “literatura em mangas de camisa” é do aprazimento do público leitor. E o escritor, quando trabalha, pensa nos que o leem.

O corretor de textos do computador tirou o acento circunflexo que botei sobre o primeiro “e” de leem. Tudo bem, respeito o corretor, mas continuo achando que enchapelado o texto soa melhor.

Pensando no leitor, quem escreve deve policiar seu texto com algemas nos pulsos e nos tornozelos. A candidata do PT ao governo do Estado do Rio, que se apresenta como professora de Filosofia, não caiu no goto do eleitorado com o seu filosofar sedal(*) e continua firme nos 2% de intenções de votos. Piores que ela só os zeros dos candidatos à presidência José Maria Eymael e João Goulart Filho, que, com a margem de erro para mais ou para menos, correm o risco de congelar com dois graus negativos.

(*) Latim *sedalis,e ‘relativo a assento, a traseiro, ânus’, derivado de sedes,is ‘assento, traseiro, ânus’.

Panorama

Panorama – Assustadora, terrível a notícia de que 23,3 milhões de brasileiros vivem abaixo da “linha de pobreza” em 2018. São seis populações do Uruguai e mais que a população do Chile.

Ainda abalado pela notícia, você apura que a linha de pobreza é de R$ 232. Isso mesmo que deu para entender: duzentos e trinta e dois reais por mês, o que deve transformar o brasileiro que vive com 390 reais mensais num milionário comparável ao Jeff Bezos, da Amazon, o homem mais rico do planeta.

Perplexo, recebo e-mail de ilustrado desembargador do TJMG perguntando: “Por que Juiz de Fora?”. Presumo que a pergunta se relacione com a facada no candidato Jair Bolsonaro e respondo que não sou Juiz-de-Forano, Juiz-Forano ou Juiz-Forense, mas carioca que se mudou para a Manchester Mineira depois de velho.

Acrescento o fato de o autor da facada, Adélio Bispo de Oliveira, ser natural de Montes Claros, que já foi Montes Claros de Formigas.

Juiz de Fora já foi das cidades mais pacatas do Brasil. E o Rio de Janeiro, que hoje é a capital mundial dos tiroteios, também foi pacata. Com 16 aninhos ganhei imenso cavalo chamado Bisturi, com 1,84m de cernelha, e com ele atravessei inúmeras vezes a Praia do Pinto, então a maior favela da zona sul carioca. Junto comigo outros cavaleiros e amazonas da Hípica, montando seus cavalos. A reação dos favelados era de espanto e admiração pelos belos animais, que nunca tinham visto em seus estados de origem.

A Hípica do Rio ainda existe. Será que algum dos seus cavaleiros se aproxima de uma favela?

Sensorial

Sensorial – Cesse tudo que a Musa antiga canta, que outro valor maior se alevanta, é sensorial e tem relação com o maior evento de arte contemporânea da América Latina, que dá a curadoria aos artistas e propõe exercício de reflexão.

“Afinidades Afetivas”, a 33ª edição da Bienal de São Paulo, tem um curador-geral, que trabalha com uma equipe de sete curadores-artistas num espaço equivalente a três ou quatro campos de futebol.

No primeiro andar, a artista-curadora Sofia Borges expõe várias obras de Tunga, nome artístico do pernambucano Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão (1952-2016). As obras de Tunga tocam o centro das sensações dos visitantes, especialmente a região do cérebro que seleciona e combina as impressões transmitidas aos centros sensoriais individuais.

A partir daí o visitante está em condições de visitar no mezanino, sem labirintite, o labirinto do argentino Alejantro Corujeira. Nelson Felix, com seu projeto seriado, vai mais longe ao propor um “coito com a Arquitetura”.

Aí é que está: quem jamais copulou com a Arquitetura passou pela vida em brancas nuvens e em plácido silêncio adormeceu. Como viver sem o coito com o Palácio da Alvorada, mesmo contando com a cama no avião presidencial para dormir com a Rose? Que fim levou a Rose? A seleção de futebol da Inglaterra tem um lateral esquerdo chamado Rose, que nada tem de rosa: é preto e joga bem.

Em vez de copular com a Arquitetura, a argentina Claudia Fontes, no setor “O Pássaro Lento”, dialoga com o prédio. Diálogo que Lucia Nogueira, na escultura “A Vontade e o Outro”, de 1989, estabelece com a poética de objetos descartados.

Denise Milan vai às profundezas “buscar essência do Brasil” e o blogueiro que toma o seu tempo se despede por aqui, antes que Denise encontre a essência deste país grande e bobo.

Feriadão

Feriadão – O repórter Gabriel Prado, da GloboNews, é dos raros brasileiros que entendem a sutil diferença entre parente e familiar. Parente é pessoa ligada a outra por consanguinidade, afinidade ou adoção; familiar é o poste da esquina, é aquilo que se conhece ou presume conhecer, o empregado, o fâmulo, o integrante de confraria religiosa, o íntimo. Assim, Gabriel Prado explicou que o acesso ao velório da atriz Beatriz Segall foi limitado aos parentes e familiares, não sendo permitida a entrada do grande público.

Pode parecer bobagem, mas não é. A influência da televisão sobre as pessoas é tão grande, que os jornalistas devem ser policiados para que não insistam nas tolices e nos erros. Ainda agora, temos no citado canal uma porção de comunicólogos pronunciando “subzídios”: Valdo Cruz, Cecília Flesch, que está substituindo Maria Beltrão nas férias e uma outra que trabalha em Brasília, chamada Marina Franceschini, que é tatuada e devia ter trocado o tempo que passou no tatuador estudando português. É triste constatar que falta um editor, um diretor, para corrigir sua turminha.

É inadmissível que um jornalista profissional diga, como disse na manhã de 6 de setembro um comentarista da GloboNews: “Quanto mais ele fazer isso”. E o negócio, no mesmo canal “pago”, às vezes vem por escrito, como às 8h12min do mesmo dia: “Drone será usado para sobrevoar por dentro o prédio”.

O verbo sobrevoar, “deslocar-se voando ou pairar por cima (de)”, agora sobrevoa por dentro, por fora, por baixo, eventualmente por cima dos escombros do prédio do Museu Nacional incendiado pela incúria de nossas autoridades.

Ainda bem que a Suprema Corte da Índia, por unanimidade, decretou que o homossexualismo é constitucional. Dia 7 de setembro de 2018, pouco depois das nove da manhã, a população da Índia era de 1.364.654.814 pessoas, das quais várias centenas de milhões estão em condições de exercer o seu direito constitucional, punido em alguns países até com a pena de morte, enquanto no Brasil é festejado pelos jornais impressos em páginas coloridas, Buá, Buá…

Desde o final da tarde de quinta-feira, Dia do Sexo e véspera do Dia da Pátria, aqui em Juiz de Fora e no Brasil inteiro, com repercussão na imprensa de muitos países, só se fala da facada desferida no deputado Jair Bolsonaro pelo montes-clarense Adélio Bispo de Oliveira, de 40 anos, formado em pedagogia.

O substantivo pedagogo, em nosso idioma desde 1589, no uso informal, pejorativo, é “pessoa que julga ter o que ensinar a todos”. O montes-clarense diz que esfaqueou cumprindo instruções de Deus. Filmado e fotografado desferindo a facada, preso em flagrante, autor confesso da tentativa de homicídio, dois dias depois do atentado continuava sendo “suspeito” para boa parte da mídia.

Luíza Cavalcante Cardoso observou que o autor do crime não tem emprego fixo e outras fontes de renda, mas tem laptop, quatro celulares, passagens, hospedagem e paga tudo em dinheiro vivo.

A GloboNews deixou um repórter plantado à porta do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, para repassar ao telespectador os atestados médicos sobre o estado de saúde do deputado esfaqueado. Repórter que informou às 18h26 minutos de sábado, 8 de setembro, o seguinte: “Nutrição por via venal, pelas veias”. Fiquei preocupado, porque sei que venal significa “relativo a venda; que pode ser vendido, que é vendável”. Em sentido figurado é “que se corrompe por dinheiro, que é receptivo a suborno; corrupto”.

Ora, o deputado Bolsonaro é conhecido pelo fato de não ter sido corrompido pelos empreiteiros, mas sou teimoso e procurei no Houaiss outro significado para venal e encontrei: “relativo ou próprio de veia; venoso”. Portanto, peço desculpas ao repórter, que estava certo.