Gravação e Vuelta à España

Gravação – Joesley Batista, o açougueiro-geral da República, gastou quatro horas de conversa gravada com seu sócio Ricardo Daud para constatar uma verdade que poderia ser dita, à sua moda, em quatro palavras: “Nós é bandido, Ricardinho”.

 

Vuelta à España – Sempre que possível, gosto de assistir às etapas diárias da Vuelta à España, prova internacional de ciclismo. Os locutores falam pelos cotovelos e deixam passar batidas as aldeias várias vezes seculares – castelos, fortalezas e monumentos de incalculável valor histórico.

Estradas nem sempre boas, algumas ruins ou péssimas, sem acostamentos, estreitas até para bicicletas, casas esparsas ao longo das montanhas. Solos muitas vezes horríveis. Milhões de oliveiras aproveitando trechos menos ruins. Num trecho de serra, árvores bonitas plantadas em terras nuas, sem qualquer outro tipo de vegetação, uma graminha, um matinho, nada de coisa alguma: só árvores bonitas de bom tamanho. Presumo que produzam diversos frutos secos, indeiscentes, com uma semente como as nozes, plural de noz, do latim nux,cis ‘todo fruto de casca ou que é de casca dura’.

Em seus 504 mil km2 a Espanha deve ter estradas e solos ótimos, mas os organizadores da Vuelta ciclística têm motivos para escolher regiões singulares. Nos trechos próximos do País Basco há casas simpáticas, cobertas de telhas de barro, e pastagens de ótima qualidade.

Nos finais de cada etapa, como acontece no ciclismo italiano e no francês, milhares de idiotas invadem as pistas prejudicando a passagem dos ciclistas, ainda que raros policiais fardados, distribuídos nas laterais da pista, intervenham para tentar impedir as manifestações dos imbecis.

Feriadão, Consultor, Improviso, Aspirador e Blogue

Feriadão  “Laços fora, soldados! Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro fazer a Independência do Brasil” teria dito o príncipe-regente dom Pedro às margens do riacho Ipiranga no dia 7 de setembro de 1822. Tudo inventado pela historiografia patriótica.

Testemunha ocular e olfativa da cena, o padre Belchior Pinheiro contou que o príncipe-regente, depois Pedro I do Brasil e Pedro IV de Portugal, vinha de quebrar o corpo às margens do riacho Ipiranga agoniado por uma disenteria com dores que apanhara em Santos.

Portanto, o país nasceu numa cagada que explica e justifica o quadro que aí está com os açougueiros da JBS enrolados numa gravação de quatro horas (!) envolvendo até ministros do STF e outros figurões da República.

De cambulhada, novo feriadão: 7, 8, 9 e 10 de setembro. Tristes trópicos!

 

Consultor – Conheço-o pessoalmente, um único encontro numa festa, é cavalheiro simpático e educado. Tem sido apresentado como “consultor”, que ou aquele que dá conselho, sem que se explique a natureza dos conselhos que dá.

Notabilizou-se, faz tempo, quando comeu a primeira-dama de um país grande e bobo. Hoje, consultor supimpa deve ser aquele que aconselha na França de Emmanuel Macron, casado com Brigitte Marie-Claude Trogneux, senhora de 64 aninhos.

 

Improviso – Não lhe digo o nome porque é moça linda, de bela voz, que trabalha honestamente como apresentadora de uma de nossas tevês a cabo. Acontece que improviso é o diabo. Saudoso amigo inteligentíssimo, cultíssimo, orador brilhante, figura solar da intelligentsia brasileira, contava do seu discurso de improviso ao inaugurar, como secretário de Educação do Estado de Minas Gerais, um seminário rural.

Dia lindo, autoridades constituídas, gente à beça, meu amigo deitou e rolou antes de dizer de sua alegria pela inauguração “deste cemitério rural”.

A moça linda improvisou ao relatar, dia 2 de novembro, a cerimônia em que uma família, depois de perder um parente atropelado, reuniu populares no local do acidente para advertir sobre os riscos de circular naquele trecho.

E a jornalista improvisou: “A família quer evitar que essa tragédia não se repita”.

 

Aspirador – Lava-jato envolve a limpeza de objeto de valor, veículo automotor que pode custar centenas de milhares de reais, como graúdos são os peixes enredados na operação homônima. É triste constatar que o Brasil também precisa de uma Operação Aspirador para limpar o pó da corrupção em todos os níveis.

Ainda agora, pela prisão dos traficantes que “exportavam” toneladas de cocaína pura para a Europa, ficamos sabendo que a Polícia Federal apreendeu, num ano, seis mil quilos de cocaína pura, no valor aproximado de meio bilhão de reais.

As quadrilhas empregam peixinhos miúdos, porteiros, faxineiros, motoristas, vigias, controladores de câmeras, iluminadores e outros funcionários subalternos do Porto de Santos, e são controladas diretamente dos presídios pelos chefões das organizações criminosas.

 

Blogue – Amanhã, feriado nacional, o caro e preclaro leitor merece folga para curtir a data livre destas bloguices.

Haiti e Seleções

Haiti –Depois de 13 anos a serviço da ONU, as tropas brasileiras terminaram sua missão no Haiti. Viajou com o ministro Jungmann, da Defesa, para participar da cerimônia de encerramento, o senador Fernando Collor (PTC-AL), prova de que o Haiti não dá sorte. Além do terrível terremoto de 2010, com presumíveis 200 mil mortos, recebe a visita “oficial” de um senador acusado de uma dúzia de roubos gravíssimos. Fazendo política, Fernando Affonso Collor de Mello seria indigno do posto de vereador em Canapi, mas é senador da República.

Houve quem sugerisse um novo Plano Marshall para recuperar o Haiti. Conhecido oficialmente como Programa de Recuperação Europeia, o Plano Marshall foi o principal programa dos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados da Europa nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, iniciativa que recebeu o nome do Secretário de Estado dos Estados Unidos, general George Catlett Marshall Jr. (1880-1959).

Reconstrução significa “ato ou efeito de reconstruir” possível na Europa, impossível no Haiti. Como reconstruir algo que nunca foi construído? Mais inteligente seria um Plano Collor conduzido pelo próprio senador, que juraria abandonar a Pombajira adotada na Casa da Dinda, subdivisão da linha de Iemanjá na umbanda esotérica, aderindo ao vodu haitiano.

 

Seleções – Nas eliminatórias para a Copa de 2018, jogos transmitidos ao vivo e em cores pelas nossas tevês, sociólogos, historiadores e a mais gente que se dedica aos estudos nesses campos têm assunto para escrever uma porção de livros sérios.

Partindo do fato de que raça pura não existe, fiquemos com as cores das peles dos jogadores que atuam por suas seleções nacionais. A Europa e os países nórdicos estão popularmente associados às peles brancas, o que não impede a seleção francesa de utilizar normalmente oito negros entre seus 11 atletas. E conseguiu empatar com a seleção de Luxemburgo, país com pouco mais que 500 mil habitantes, rivalizando em população com o município de Juiz de Fora, MG.

A seleção da República Checa tem 10 brancos e um preto, aliás chamado Selassiê. A Dinamarca, país do tamanho da área amazônica da Renca (Reserva Nacional de Cobre e seus Associados), que está dando um bololô dos diabos, tem 10 brancos e um preto, enquanto a Holanda, jogando futebolzinho de quinta categoria, tem três atletas de cor. Húngaros branquíssimos, vários portugueses com alguns pés e as respectivas chuteiras em África. Poloneses brancos, um alemão escuríssimo, presumo que os noruegueses sejam brancos, mas não vi o jogo.

Tudo, insisto, no terreno da cor da pele, que “raça pura” só existe por iniciativa dos criadores de animais das diversas espécies, quando convencionam o padrão racial para que o bicho seja considerado “puro”.

Ficou célebre o caso de famoso criador que pintou de preto a vassoura do rabo de um dos seus touros nelore, para enquadrá-lo no padrão da raça. Por mal dos pecados, numa exposição alguém se lembrou de segurar na vassoura do touro e a tinta sujou sua mão. Lavada, a vassoura deixou de ser preta, o nelore foi desclassificado e o expositor ficou desmoralizado.

Estupro e Economia

“Estupro” – Bombou neste belo blogue o comentário sobre a “escritora” desbocada (“Queria chamar de ‘tentativa de estupro’, mas foi estupro mesmo, Tava bêbada? Tava. Foda-se.”) que se queixou de um motorista da Uber. Na opinião meditada dos caros e preclaros leitores, o dedo do motorista só ficou imundo depois da dedada na calcinha da bêbada.

Enquanto seu lobo não vem, um cidadão foi detido por ejacular (emitir esperma) no pescoço e no rosto da passageira de um ônibus na Avenida Paulista, centro da cidade de São Paulo. O cidadão tem 17 passagens pelas delegacias paulistanas como ejaculador. Não pode ver passageira de ônibus que não ejacule. Foi solto no dia seguinte e reincidiu anteontem.

A partir da penúltima ejaculação, preso em flagrante ejaculatório, o juiz que o soltou, o Tribunal de Justiça, a Associação dos Magistrados ejacularam tantas besteiras sobre leis, letra da lei, códigos etc., com tamanho conhecimento de causa, que emporcalharam o noticiário.

Aquele negócio do “nullum crime sine lege” (não há crime sem lei anterior que o defina) é muito bonito para mostrar que o sujeito estudou Direito, mas não tem cabimento no caso paulistano. É claro, como também é lógico e evidente, que ninguém pode ejacular sem autorização no pescoço e no rosto dos outros.

No tempo em que havia amor hétero, uma namorada portuguesa podia pedir “Dá-me o teu caldinho”, mas num ônibus é crime hediondo que pede cadeia imediata até que se defina o número de anos que o animal deve permanecer preso.

 

Economia – Ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem-estar, economia é assunto dos mais complicados.

Por mais que me esforce, nunca entendi nada do que vejo e leio por aí. Há coisa de 30 anos, meu Opalão transportava um tanque adaptado para 140 litros de gasolina, única forma de viajar nos finais de semana em que os postos eram proibidos de vender combustível. Viajando muito, acabei merecendo o apelido “Noventa” pelos frentistas do Roselanche, de Barbacena, quando viam meu carro aceitar 90 litros num tanque suposto de só receber 80.

Nesse tempo, 100 litros de gasolina correspondiam a um salário mínimo. Acertei com os donos de uma revista agropecuária o pagamento de crônica mensal de dois salários mínimos ou de 200 litros de gasolina, oscilando conforme o maior valor. Nos meses em que o salário era maior que 100 litros, me pagavam dois salários. Quando a relação se invertia, pagavam 200 litros.

O negócio funcionou assim durante algum tempo, até que o salário se descolou dos 100 litros e a diferença foi aumentando. Hoje, com um salário você compra mais que 200 litros.

A combinação ficou injusta, pois no mercado minha crônica não valia aquela “fortuna”, e a colaboração foi fixada em 200 litros. Daí a dificuldade que também tenho para entender, desde sempre, as oscilações do dólar americano. Há períodos em que o dólar vale uma fortuna, como há períodos em que vale uma tuta e meia, mistério que só os economistas tentam explicar.

Fufuquear, Toscanini e Escritora

Fufuquear – J. B. Serra e Gurgel, na 8ª edição de seu Dicionário de Gíria, diz que fufuquear é fazer sexo. Assunto que vem à balha, sempre mais chique do que vir à baila, com o deputado André Fufuca (PP-MA) presidindo a Câmara Federal na ausência do presidente Rodrigo Maia e do vice-presidente Fábio Ramalho.

No mesmo Dicionário, Serra e Gurgel informa que “fudeu!” significa “deu tudo errado!”. Faz tempo que o Brasil atravessa período em que tudo dá errado, já por incompetência dos seus dirigentes, já pela corrupção em todos os níveis.

Médico, o deputado André Luiz de Carvalho Ribeiro, mais conhecido como André Fufuca, nascido em 1989 em Santa Inês, Maranhão, Brasil, com sua bela cabeleira negra penteada para fazer inveja aos carecas do Congresso, ainda quando não consiga resolver os problemas nacionais, permite que o comentário “fudeu!” seja alternado com “fufucou!”, diferente de fufuquear, isto é, fazer a melhor coisa da vida.

 

Toscanini – Arturo Toscanini (1867-1957) foi um gênio da regência musical. Prestou à humanidade serviço inestimável no campo da música clássica. Seu talento jamais esteve a serviço do fascismo de Benito e ao nazismo de Adolfo.

Como todo gênio tinha certas maluquices, sobretudo e principalmente no terreno sexual. Por exemplo: mandar um lenço pelos correios pedindo a uma de suas namoradas, a pianista italiana Ada Mainardi, que o devolvesse, também por via postal, empapado de seu sangue menstrual.

Há que desconfiar dos gênios. Faz tempo que desconfio do ministro Sarney Filho, o Zequinha, cuja invulgar genialidade foi descortinada por sua avó Kyola Ferreira de Araújo Costa. 

Desde 14 de julho de 1957, quando veio à luz na cidade de São Luiz, capital do glorioso Maranhão, Zequinha tem sido avaro da genialidade anunciada por dona Kyola, mas a nação respeita a antevisão avoenga e continua procurando um sinal, uma palavra, um gesto que possa demonstrar a genialidade de sua excelência.

 

Escritora – Clara Averbuck, 38 anos, se apresenta como escritora. É fácil. Escritor não precisa de diploma como advogado, médico, dentista, engenheiro.

Matéria de meia página no Estadão, com foto colorida de 12 x 14,5cm, apresenta a escritora branca, plus size, rosto bonito, tatuagem pavorosa de ombro a ombro abaixo o pescoço, educadíssima: “Queria chamar de ‘tentativa de estupro’, mas foi estupro mesmo, Tava bêbada? Tava. Foda-se”, escreveu a gorducha ao acusar um motorista do Uber de ter enfiado “um dedo imundo em mim”.

 A partir do “Foda-se” a matéria é irrelevante. Pouco importam o limpamento do dedo enfiado na “calcinha mínima” da bêbada, a demissão do motorista do Uber, o auê aprontado pela escritora, o conceito de estupro que pressupunha “cópula vagínica” e hoje serve para tudo, até para dedo imundo em calcinha mínima.

Pena que o Estadão gaste papel e tinta com uma bêbada plus size, que em catalão é més mida, em zulu ubukhulu besayisi, em italiano taglia grossa e em latim plus amplitudo, como ensina o Tradutor Google, esclarecendo que digitus turpis, ainda na língua indo-europeia falada pelos habitantes do Lácio e pelos antigos romanos, desde o século VII a.C., significa dedo imundo.

Sevandija blogueiro, The Wall e mais

Sevandija blogueiro – Sevandija, derivado do nome basco de lagartixa, entre outros significados pode ser “pessoa que vive à custa dos outros”. Injustiça com a lagartixa, bichinho que come pernilongos. Cada mosquito degustado é um a menos para transmitir ao homem doenças horríveis tipo malária, febre amarela, zika & Cia.

Portanto, sevandijar é feio, salvo quando o escriba copia textos de sua lavra para transcrever em seu blogue. Aí vão alguns trechos que publiquei sobre Trump, o marido de Melania.

 

10. The Wall – Se a história do muro na fronteira mexicana for verdade, Donald J. Trump se transforma em caso psiquiátrico gravíssimo. Tiro meu time de campo.

 

11. Ouro – O governo do Pará ultima a concessão ao grupo canadense Belo Son de autorização para explorar, na região da usina de Belo Monte, daquela que será a maior mina de ouro do Brasil. Como sempre, as autorizações esbarram na Funai preocupadíssima com as terras indígenas, preocupação que Trump não teve quando autorizou a construção de um oleoduto atravessando uma reserva Sioux.

 

12. Justiça – Obrou muitíssimo bem o presidente Donald J. Trump ao demitir a senhora que exercia, interinamente, o cargo de secretária de Justiça dos EUA, equivalente a ministro da Justiça no Brasil.

Sally Quillian Yates é linda e a beleza é incompatível com o cargo que ocupava. Mais grave que isso: em agosto de 2017 Sally faz 57 aninhos. Com aquela formosura, como pode alguém beirar os 60?

 

13. Aeroplanos – São dois os aeroplanos norte-americanos que atendem pelo nome de Air Force One. Ambos têm dispositivos especiais que permitem reabastecimento em voo, outros que talvez evitem os mísseis lançados contra eles, emissores de sinais capazes de confundir radares, capacidade de permanecer voando mais de 50 horas consecutivas.

Informações que recolho da matéria de Roberto Godoy, no Estadão: os dois aviões estão chegando perto dos 27 anos de uso constante. Por melhor que seja sua manutenção é preciso considerar a fadiga do material, o “cansaço normal” da máquina. A White House estuda a compra de dois novos aparelhos especialmente fabricados pela Boeing. Preço de cada um: US$ 4 bilhões.

Dir-se-á que é muito dinheiro para transportar certos idiotas como Trump, Carter e Clynton, mas é preciso notar que o Airbus A319CJ, VC1A, vulgo Aerolula, oficialmente batizado Santos-Dumont, custou uma fortuna para transportar um analfabeto desonesto, sua namorada Rose e a Búlgara, trinca merecedora das antigas carroças de lixo tracionadas por muares nos subúrbios do Rio.

 

14. Topetudo – Adjetivo e substantivo masculino, regionalismo brasileiro, topetudo é indivíduo valentão, destemido, arrogante e audacioso talqualmente Donald J. Trump, presidente dos Estados Unidos da América. Sua cabeleira, contudo, com aquele topete que já é um exagero, alcança o paroxismo do ridículo nos fiapos horizontais cuidadosamente penteados sobre as orelhas.

 

15. Fato – Não é regra, como também não é exceção: muitas pessoas maluqueiam. Tanto quanto se possa acreditar no noticiário, o presidente Donald J. Trump está maluqueando ou já maluqueou.

O venezuelano Maduro, muito mais moço que Trump, faz tempo que maluqueou. Temos agora o presidente dos Estados Unidos dizendo tolices que desdiz 24 horas depois, hostilizando governantes que não deveria hostilizar, aprontando banzé que o planeta dispensa.

“Alá é grande!” berrou o terrorista egípcio que invadiu o Museu do Louvre. O gorducho que comanda a loucura norte-coreana lança mísseis e projeta bombas atômicas. “Baste a quem baste o que lhe basta/ O bastante de lhe bastar!/ A vida é breve, a alma é vasta;/ Ter é tardar” versejou Fernando Pessoa, poeta bem melhor que o nosso Temer.

Por falar em Michel e poesia vejam esta, que não é dele, sendo embora mesoclítica: “Beijar-te-ei demoradamente,/ em ócio monástico,/ busca existencial,/ ourives trabalhando joia/ definitiva./ Amar-nos-emos loucamente,/ na eternidade do momento/ na imensidão do nosso desejo/ em alcova minúscula,/ primacial./ Juntar-nos-emos em silêncio/ para dizer ao mundo/ de nosso amor proibido/ em sua espantosa beleza/ em sua imensa loucura/ em sua eterna sofreguidão./ Dir-me-ás que me amas;/ dir-te-ei que és única;/ Mentir-nos-emos gostosamente,/ Em nome de tudo/ E de mais ninguém”.

 

16. Alternativas – A mídia pegou no pé de uma assessora do Trump, quando falou de “fatos alternativos”. Parece-me que a moça não inventou moda. Até mesmo a verdade – coisa, fato ou evento real – não está livre das alternativas. Parece una, singular, indivisível, mas a verdade bíblica – e Trump, ao assumir a presidência, jurou com a mão sobre a Bíblia – provém de pontos de vista bem diferentes da noção ocidental, que remonta principalmente à terminologia grega. Para os gregos a verdade é a concordância entre o pensamento e a realidade, a própria realidade enquanto se revela ao espírito. Temos aspiração tipicamente grega à clareza, à compreensão teórica e intelectual.

A concepção bíblica da verdade, porém, é existencial; corresponde a um desejo prático de conhecimento para a vida. Na própria Bíblia a noção evoluiu: no judaísmo e no NT o termo verdade é cada vez mais relacionado com a lei, a revelação, a palavra de Deus.

Donde se conclui que também a verdade pode ser alternativa, justificando os fatos alternativos citados pela assessora de Trump.

 

17. Imprensa  Donald J. Trump vive criticando boa parte da mídia do seu país. A julgar pelo que se viu e se vê por aqui, é provável que o presidente americano tenha carradas de razão. Sérgio Cabral Filho, Édison Lobão, Cláudia Cruz, Rui Falcão, Franklin Martins são jornalistas.

 

18. Grande novidade… – Pelo menos 18 mil profissionais médicos da área da saúde mental, nos Estados Unidos, assinaram petição on-line pelo impeachment do presidente Trump, alegando sua incapacidade para o cargo. No final do ano passado, três professores de Psiquiatria da Universidade Harvard escreveram ao então presidente Obama alertando-o sobre o perfil psi do candidato Trump.

Grande novidade… Vosso philosopho, que interrompeu sua “vocação” para estudar Medicina ainda no terceiro ano do curso científico, antes do vestibular, vezes sem conto escreveu neste espaço sobre as birutices do marido de Melania.

 

19. Notas carnavalescas – É impossível que alguém, honestamente, ache bonitos os carros alegóricos e as fantasias mangueirenses, que desfilaram na manhã de terça-feira.

Mil vezes a foto colorida da genitália de Lílian Ramos ao lado de Itamar Franco, presidente da República. O topete de Itamar crescia para cima, enquanto o de Trump cresce para a frente. Com aquele topete, será que Trump vai ao pote da linda Melânia?

E a Ivete Sangalo? É linda, escultural, nunca foi atleta profissional, tem 44 anos (quarenta e quatro!) e pula, corre, canta e encanta horas e horas seguidas na Bahia e no Rio. Num dos desfiles, subiu no trio vestida de pirulito. Precisava?

 

20. Quefazeres – Pelo visto, a mídia nhambiquara anda com falta de quefazeres do tanto que implicou com as falas de Michel Miguel Elias Temer Lulia no Dia Internacional da Mulher. Jornalistas sérios e outros nem tanto perderam horas criticando “gafes” do presidente, procurando ver asneiras, desaires, desazos, deselegâncias, deslizes, despropósitos, disparates, escorregadelas, impropriedades, inconveniências, inoportunidades, lapsos, mancadas, ratas ou tolices em alguns comentários normais, que nada tiveram de ofensivos às mulheres.

Fatos incontestáveis: Temer veste-se bem, é alfabetizado e tem mulher bonita. Diante disso, a mídia resolve procurar pelo em ovo e inventa uma porção de críticas, que não vêm a pelo, só para mostrar serviço.

E não se acanha de falar, no dia seguinte, da “repercussão” das críticas na imprensa mundial. Ora, a imprensa mundial anda preocupada com o Trump, o Putin, o chinês de plantão, o gorducho norte-coreano. Michel Miguel Elias, Brazil, Argentina pouco importam: não existem. São notinhas plantadas por correspondentes do terceiro time para encher linguiça nos jornais importantes.

O aluguel “sem licitação” da lancha em que Marcela, sua mãe e Michelzinho passearam durante meia hora no litoral da Bahia foi pesquisada durante horas por uma cadeia radiofônica. Desliguei meu radinho de pilhas. Licitação para alugar uma lancha…

Jatinhos e lanchas, por sua própria natureza, são veículos em que a gente embarca sem pesquisar aluguéis, licitações, registros de propriedade.

Avoei no jatinho de um banco em que fui o único jornalista desimportante. Quatro outros profissionais representavam a nata da mídia brasileira. Mais grave que isso: como fiquei numa poltrona próxima do banqueiro, fui servido de uísques e castanhas de caju, vários uísques e raras castanhas, pelo dono do grande banco.

Você, caro e preclaro leitor, avoaria num jatinho dos meninos da Friboi? Passearia nas lanchas que os meninos da Friboi devem ter? Pesquisa muito mais séria e atual seria aquela que explicasse como pode Ivete Sangalo, aos 44 anos, com idade para ser avó, continuar tão bonita, interessante e disposta a cantar e pular durante horas, dias a fio, em diversas cidades brasileiras.

 

De novo? – Maju Coutinho, do JN, prevê nova onda de “friozinho” no sudeste a partir desta quinta-feira, 31 de agosto. Quase escrevi onda sobreposta à atual, pois o maldito frio ainda não acabou, mas fui ao Houaiss e descobri que sobreposta significa bucim.

Na esperança de que palavra começando por “buc” fosse algo apetitoso, acabei descobrindo que bucim é “peça que se põe no fundo das caixas de gaxetas para comprimir a gaxeta contra a haste ou eixo, bloqueando vazamentos de vapor, óleo, água e outros fluidos”.

Inveja, Verdade Real, Suprassumo e China

Inveja – Vezes sem conto, sempre com pureza d’alma, tenho dito que a inveja nunca fez parte do meu vocabulário. Pierre Daninos, num dos seus deliciosos livros, falou dos norte-americanos e dos franceses. Quando um americano via passar alguém dirigindo carro bacana, dizia: “Que carro bonito! Vou trabalhar para comprar um igual”. Já o francês, ao ver a passagem de um patrício dirigindo carro supimpa, protestava: “Desce do carro e vem andar a pé como toda a gente”.

Por mal dos pecados, dei para ficar invejoso dos amigos que vivem viajando para os Estados Unidos. Em Miami, Orlando e noutras cidades americanas, os brasileiros podem comprar magníficos charutos enrolados na República Dominicana. Para quê? Ora, para me trazer de presente.

Recomendo vivamente as marcas A. Fuentes, Ashton Cabinet e Romeu Y Julieta 1875 Reserve, com 18 a 20 centímetros de comprimento. Cada viajante pode passar pela alfândega brasileira trazendo 30 unidades para alegrar a existência de idoso philosopho. De antemão, muitíssimo obrigado.

 

Verdade Real – Dera Sacha Sauda não tem ligação com Sacha Meneghel Szafir, 19 anos, estudante de moda conhecida por ser a filha única de Xuxa Meneghel e do ator Luciano Szafir.

Dera Sacha Sauda é uma organização espiritual (“Lugar da Verdade Real” em híndi, língua indo-europeia, do ramo indo-iraniano, sub-ramo indo-árico, grupo sânscrito. É língua literária e, das línguas oficiais da Índia, a que tem o maior número de falantes, aproximadamente 190 milhões de pessoas. Escreve-se com o alfabeto devanágari, que você não conhece nem precisa conhecer. A Terra tem mais de 7 bilhões de pessoas que não conhecem o alfabeto devanágari e morrem de outras coisas.

Gurmeet Ram Rajim Singh, fluente em híndi, cabeludo, braços e ombros peludos, que diz ter 40 milhões de seguidores, vem de ser condenado a 20 anos de cadeia pelo estupro de duas jovens seguidoras. O guru da Dera Sacha Sauda gosta das coisas boas, motos e automóveis de luxo, jovens partidárias e outros confortos.

Protestos violentos dos seguidores de Gurmeet Ram Rajim Singh deixaram dezenas de mortos e centenas de feridos. O Hospital Civil de Panchkula, cidade do norte da Índia onde o guru foi condenado, reportou as mortes e os feridos.

 

Suprassumo – O grau mais elevado, o máximo, a quinta-essência, o cúmulo do azar está acontecendo com os venezuelanos que fogem da fome, do desemprego, da escassez de papel higiênico da ditadura implantada por seu patrício Nicolás Maduro, ex-maquinista do metrô de Caracas.

Enquanto os refugiados norte-africanos e do Oriente Médio podem ter, eventualmente, a sorte de alcançar a Europa, milhares de venezuelanos fogem para Roraima, estado brasileiro que tem como prefeita da capital Boa Vista a senhora Maria Teresa Surita, ex-mulher do senador Romero Jucá Filho.

Pernambucano, o senador Jucá Filho é o dono daquele estado, uma das 27 unidades federativas do Brasil. Escapar da Venezuela de Maduro para território roraimense, com todo o respeito devido aos refugiados, é passar de cavalo a burro. Que os deuses do Olimpo e os 33 milhões de deuses indianos, em sua infinita misericórdia, se amerceiem dos refugiados.

 

China – Obrou muitíssimo bem o presidente Michel Temer ao convidar o deputado Fábio Ramalho (PMDB-MG) para visitar a China. Fabinho tem o dom de aglutinar, de reunir pessoas, como demonstrou ao longo de sua carreira política. No terceiro dia da viagem à China é capaz de reunir o presidente Xi Jinping ao norte-coreano Kim Jong-um em torno de uma leitoa à pururuca, que termine com todos escornados sobre as camas do palácio chinês.

Fenômeno testemunhado um ror de vezes no apartamento funcional do deputado, em Brasília, DF. Afamanado e maledicente jornalista mineiro, quando se levantou da cama para ir ao banheiro no final do corredor, contou dos diversos cavalheiros e damas que avistou pelo caminho, desmaiados, traseiros à mostra com ou sem cuecas e calcinhas. Maldoso como ele só, jurou que um dos rabos mais feios pertencia a uma colega de profissão.

Amontoado, Pessoa, Brasil e Mental diseases

Amontoado – No blog de ontem citei como ex-governador do Mato Grosso o bandido Sinval Barbosa. Errei. Errar é humano. Peço desculpas. Bandido ele continua sendo e foi governador do MT, mas seu nome é Silval, amontoado de Silvas.

 

Pessoa – Em filosofia, pessoa é cada ser humano considerado como individualidade física e espiritual, e dotado de atributos como racionalidade, autoconsciência, linguagem, moralidade e capacidade para agir.

O magistrado, o alfaiate, o gari, o traficante, o médico, o mecânico – cada um deles é uma pessoa e, como tal, está eventualmente sujeito aos males que podem afligir todas as pessoas, da mais humilde à mais ilustre.

Pelo que tenho visto, famoso ministro do STF está fazendo um quadro de perturbação mental dos mais graves. Num mecânico, num gari, num alfaiate, as consequências do quadro mental seriam passíveis de correção. No Judiciário, sei não.

 

Brasil – Você já ouviu falar dos roubadores? É plural de roubador, que não tem no Aurelião e no Houaiss, mas tem no vocabulário da Academia Brasileira de Letras e na fala do Dr. Fábio Asty, delegado encarregado de combater o roubo de cargas na Baixada Fluminense.

Roubadores são os ladrões encarregados de roubar os caminhões na Baixada seguindo as encomendas dos “empresários” que têm lojas naquela região. Na verdade, não são empresários, mas ladrões que encomendam as cargas para vender em suas lojas.

Processo complexo como aprendi na tevê. Para roubar os caminhões, os roubadores dependem de autorização dos traficantes, que cobram pedágio de 50% do valor da carga.

Sem autorização dos traficantes, os roubadores não podem exercer sua profissão. As “encomendas” variam conforme os pedidos da ala empresarial: alimentos, bebidas, eletroeletrônicos, laticínios e o mais vendido em cada loja.

Policiais civis e policiais militares faz tempo que estão com os seus modestos salários atrasados, consequência da roubalheira dos governos Sérgio Cabral e sucessores. Vosso país não é fácil e nunca foi para principiantes.

 

Mental diseases – Tatuagens, piercings, cabelos, unhas, roupas que se veem por ai estão sendo consideravelmente enriquecidas pelo apontamento das orelhas. Criaturas de rostos e orelha normais recorrem à cirurgia plástica para tornar pontiaguda a parte de cima de suas orelhas. Não invento; vi na tevê.

Cabelo de jogador de futebol foi transformado em coisa espantosa. Nos supermercados mineiros e noutros locais públicos do mundo inteiro circulam pessoas com piercings em diversas partes do corpo e o Google informa o tempo médio de cicatrização do metal que perfura o cavalheiro ou a dama: lábio (2 a 6 semanas), língua (4 a 6 semanas), bochechas (2 a 3 meses), sobrancelhas (2 a 5 meses), tragus (orelha – 2 a 12 meses), cartilagem da orelha (1 ano), aba do nariz (2 a 12 meses), umbigo (3 a 12 meses), mamila (4 a 12 meses), clitóris (4 a 8 semanas), períneo (2 a 6 meses), pênis (8 semanas), nuca (6 a 8 meses), cartilagem da orelha e do nariz (3 a 12 meses), braço e pulso (1 a 2 meses).

Orelhas pontiagudas servem à maravilha como título de um livro que pretendo publicar: “Abaixem as orelhas”. Pois é, quando um burro fala os outros abaixam as orelhas.

Hediondez, Luxo, Recorde e Naufrágio

Hediondez – Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, Joesley Batista, dono da JBS, Sinval Barbosa, ex-governador de Mato Grosso, não se contentaram com o banditismo: inventaram o banditismo hediondo, repulsivo, imundo, depravado quando gravaram em áudio e vídeo seus colegas na ladroeira.

Até os piores bandidos, que diabo, têm os seus códigos comportamentais. Marcos José Monteiro Carneiro, com esse nome de funcionário do mais alto escalão, alcunhado Periquito e braço direito do famoso Fernandinho Beira-Mar, seria incapaz de gravar seus parceiros para entregar vídeo e áudio à polícia ou aos traficantes de um grupo rival.

As gravações feitas pelo chefe do gabinete do governador Sinval Barbosa emporcalham moralmente gravadores e gravados, corruptores e corrompidos, farinha hedionda do mesmo saco, se é que algum deles tem noção do que seja o “conjunto dos princípios morais, individuais ou coletivos, como a virtude, o bem, a honestidade etc.”.

 

Luxo – É um tanto de gente morando em condomínios de luxo, que a definição do substantivo, em nosso idioma desde o século XIII, exige explicação.

Há luxos e luxos. Alguns, com o passar dos anos, deixam de sê-lo. Exemplos: garagem, vaga presa na garagem, vaga solta na garagem, várias vagas soltas na garagem. Edifícios do mais alto luxo, há 100 anos, não tinham garagem. Depois, começou o “luxo” de vaga presa na garagem: você precisava manobrar dois ou três carros para sair com o seu. Vaga solta foi outro luxo. Em BH, visitei edifício que tem 16 (dezesseis) vagas para o apartamento de cobertura. E o feliz proprietário comprou mais seis alternadas de vizinhos, coitados, que só tinham cinco. Pouco tempo depois, o dono do apê de cobertura foi preso. Maldade do juiz, que não gosta de gente que tem 22 vagas na garagem. Foi solto na semana seguinte, que o país é pouco sério.

Câmeras de segurança, antes um luxo, hoje são corriqueiras. Suítes, hoje indispensáveis em apês medianos, um luxo nos melhores apês construídos há 80 anos.

Condomínios horizontais com segurança armada, um luxo que se transformou numa necessidade. Carro blindado, luxo dos mais úteis.

Nos castelos europeus, há luxos que permanecem luxuosos per omnia saecula saeculorum; outros há que se vulgarizam, perdem a luxuosidade e beiram a cafonice quando não têm valor intrínseco, casos do ouro e das pedras preciosas.

 

Recorde – Sexta-feira 25 de agosto de 2017, manhã mais fria do ano. Fonte: o termômetro chinês aqui da sala. E o idiota sentado diante do computador.

 

Naufrágio – Naufrágio com mortos é sempre uma tragédia. Noticiado pelo GloboNews em Pauta, é tragédia multiplicada por mil. A jornalista Bete Pacheco, moça bonita, acha que os passageiros dos barcos amazônicos, né?, devem viajar com cintos de segurança, né?, para evitar que corram para um dos lados da embarcação, né?

Ótimo jornalista político, Gerson Camarotti diz que concorda com a bonita Bete, ambos regidos pelo âncora Sérgio Aguiar, barcos têm âncoras, com informação preciosa: como turista, já andou de barco na Bahia.

Enquanto não inventarem o tolicímetro, medidor de tolices que permita ao telespectador interferir nos programas da tevê a cabo, o noticiário continuará sujeito aos cintos de segurança nas redes dos barcos amazônicos.

Ecianos, Xilindró e Ouvido

Ecianos – Dois amigos, que não conheço pessoalmente, trocaram ideias sobre as cores citadas em “A Cidade e as Serras”, do Eça, livro que reli uma porção de vezes.

Tudo que sei de Jotapê é que faz caminhadas matinais no campus da UFJF, onde vê uma porção de jacus, e fuma charutos. De Agacê, autor da carta, sei que mora no Recôncavo Baiano e vende charutos. Transcrevo a epístola, que me pareceu muito interessante.

 

Caríssimo Jotapê,

 Trato de algo feito por quem não tem muito a fazer, e que quando o faz, é por prazer.

 Enxerido, fucei as ecianas páginas de “A cidade e as serras”, - sem esgotar as inumeráveis menções cromáticas – busquei saber como o vate cuidou em qualificar as cores e/ou definir seus graus de intensidade.

Como era de se esperar, deparei-me com inesperados instantes de alegorias e metáforas, algumas das quais ora divido contigo, dileto amigo entre os meus prediletos que curtem a boa escrita.

Verdade que os textos são muito mais que a simples soma das frases que o compõem. Tais frases, porém, quando analisadas em particular, nos concedem a dimensão qualitativa da verve autoral.

 O morango vira cor e o branco vira neve

“Uma madeira branca, lacada, mais lustrosa e macia que cetim, revestia as paredes, encaixilhando medalhões de damascocor de morango muito maduro e esmagado; os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas, resplandeciam com a mesma laca nevada, e damascos amorangados estofavam também as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de gulas delicadas, de gulas intelectuais.

 

uma agenda empelicada

...  apanhando o livro opressivo, encadernado em pelica, de um carinhoso tom de rosa murcha ...

 

Instantâneos azuis

... e o céu de março nos concedia caridosamente um pouco de azul aguado.

... uma chuva miudinha pingava molemente de um espesso céu de algodão sujo.                                                                                                           ]

... Os seus olhos azulados, de um azul sujo ...

 Incontáveis tons de verdes

... sua copiosa cauda de um verde-negro ...

... todas as suas despesas em um livro de contas encadernado em pelúcia verde-mar.

O damasco das paredes, os divãs, as madeiras, eram verdes, de um verde profundo de folha de louro.

Um biombo de laca verde, fresco verde de relva, resguardava a chaminé de mármore verde, verde de mar sombrio, onde esmoreciam as brasas de uma lenha aromática.

Dos dois lados do comboio era a longa planície monótona, sem variedade, ... de um verde de resedá, verde cinzento e apagado ...

 Instantes alvi e auri-cerúleos

... avistava longe ...entre o mar muito azul e o céu muito azul, a branca vela, hesitante, procurando Itaca.

... metido em um espantoso jaquetão de veludilho amarelo debruado de seda azul!

Em uma dessas manhãs ... o tempo, que andara pela serra tão alegre, em um inalterado riso de luz cintilante, todo vestido de azul e ouro ....

Na tarde do seguinte domingo ... em um silêncio todo feito de azul e sol ....

 Instantes alvi e auri-negros:

... a brancura da face empoada, e a escuridão dos olhos largos ...

E com aquelas sedas e veludos negros, e um pouco do cabelo louro, de um louro quente, torcido fortemente sobre as peles negras que lhe ornavam o pescoço ...

 Brancuras & alvuras

... sua branca alma e o seu branco cisne e as suas brancas armas ...

Era um moço gordalhufo, indolente, de uma brancura crua de toucinho.

... revestido de flanelas leves, de uma alvura de açucena.

Depois, costeando o velho lagar a que um bando de pombas branqueava o telhado ...

 Contraste rubro-negro

Ao fundo a cozinha, imensa, era uma massa de formas negras, madeira negra, pedra negra, densas negruras de felugem secular. E neste negrume refulgia a um canto, sobre o chão de terra negra, a fogueira vermelha ...

 Quando surge o amarelo

... e um moço com barba cor de milho ...

...  grossos pijamas de pelúcia cor de ouro velho ...

E os seus cabelos eram imensos ... em dois tons amarelos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma torta ao sair quente do forno.

... adornara a cama com uma de nossas colchas da India mais ricas, cor de canário ...

Dentro as curtas chamas mal luziam, mal derramavam a sua amarelidão triste ...

Vidraças distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro.

 A cor preta, dita negra

... os bandós furiosamente negros de Madame Verghane ...

... os seus famosos bandós negros de um negro furioso ...

Que olhos, de um negro tão líquido e sério.

... ela apareceu toda de negro, de um negro liso e austero de Semana Santa.

 A cor  da flor lilás, de vez em quando

Com efeito! é um absurdo um colete preto!... Mesmo por harmonia com o estado de alma da duquesa, devia ser lilás, talvez cor de resedá muito desmaiada ...

... uma bata de lã de cor lilás com sotaches negros ...

Os copos de um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que neles passara em fartos anos de fartas vindimas.

 Prossigo em Eça, embora na fila de minhas releituras peça licença uma coletânea de quinze contos escolhidos entre os quase trezentos produzidos pelo patrício Machado de Assis.

E, enquanto o implacável tempo passa, esmiuço sentimentos que afloram em solitários momentos, quando, ao desjejum matinal, degusto dois ovos fritos; quando caço carinhosos diminutivos do falar lusitano, em Eça; quando mergulho, intentando resgatar a linha do tempo da liga de futebol de minha cidade; quando não abdico do inebriante e dourado scotch, sempre contestado por minha parceira de teres e haveres; quando, com certa antipatia, encaro o inevitável adeus aos dentes próprios, na reta final da vida; quando assumo as limitações físicas impostas pelo infindável rodar da Terra; quando intento seguir matutando e escrevendo a dois ou três distintos amigos; quando abdico de coisas muitas que, no passado, tive por importantes.

E assim, de ovo em ovo; de diminutivo em diminutivo eciano; de descobertas em descobertas de acobertados fatos da vida da liga citadina de futebol; de drinque em drinque; de dentes que fraquejam a dentes que despencam; de cronológicas limitações a antológicas e não desejadas situações; de zap em zap; de email em email; abro mão por me faltarem mãos incapazes de prendendo, traduzirem pretéritas e intensas vivências, então tidas – para mim diga-se - como fabulosas. Assim, viro fábula.

 De formas que, fabuloso e enamorado pelas muitas cores com as quais Eça tingiu sua saga urbano-serrana, despeço-me.

 Colorido abraço.

A cor do dito, a teu critério fica. Agacê.

 

Xilindró – Eduardo Brandão Azeredo, ex-governador de Minas inventado pelo governador Hélio de Carvalho Garcia (1931-1916), anda correndo o risco de frequentar o xilindró: peculato e lavagem de dinheiro.

Se existisse o crime de sacanagem, procedimento próprio de sacana, Eduardo Azeredo estaria preso há vários anos. Sacaneou um amigo e assessor, que me contou o caso. Amigo que o assessorou no governo ganhando uma miséria, convidado quase diariamente para acompanhá-lo em solenidades chatíssimas, que acabou sendo traído por sua excelência na prestação de contas de modesta pousada diamantinense. Aqui se faz, aqui se paga, deve estar dizendo o ex-dono da pousada.

 

Ouvido – Não basta conhecer o idioma, publicar livros de sucesso, manter coluna em jornais impressos em português. Com todo o respeito, parece-me que o gajo deve ter “ouvido” para não publicar textos que soam mal nos ouvidos de seus leitores. Segunda-feira, 21 de agosto, na coluna de afamanado escritor angolano, anotei o seguinte: “O que significa, então, tão extraordinário esquecimento?”.

Então, tão, é uma paulada nos tímpanos dos leitores. Mais adiante, o gajo escreveu “Colecção”, que soa mal no Brasil. Donde se conclui que é melhor não concluir nada e deixar como está para ver como é que fica.